sábado, 16 de novembro de 2013

A MOÇA DA CALCINHA DE RENDA

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Paulo não estava vivendo o melhor momento da vida. Decididamente.
Trabalhava numa agência publicitária no Leblon, Zona Sul do Rio de janeiro. Estava atolado de trabalho até o fim da Copa de 2014. Clientes loucos para agradar, produtos inúteis para fazer parecer indispensáveis. Havia três anos, não sabia o que eram férias. Além disso, Pâmela, sua mulher, deixara o apartamento onde moravam fazia três meses, levando consigo a pequena Alice, filha do casal, de apenas dois anos. Desde então, Paulo almoçava em restaurantes self-service e comia lasanhas congeladas no jantar.
Mas nada disso era o que mais incomodava Paulo. Era verão no Rio de Janeiro, calor escaldante, corpos semi-desnudos no calçadão de Copacabana. Mas que diabo, Paulo não transava há quase um ano!
Essa, provavelmente, havia sido uma das razões para o fim do casamento. Paulo trabalhava demais, quase nunca estava em casa. Quando estava, Pâmela não queria. Ela se queixava da ausência do marido. “Não quero educar a nossa filha sozinha”, dizia. Mas Paulo sustentava que sua carreira mantinha o padrão de vida elevado da família e, assim, um torvelinho de frustrações ia abrindo um abismo cada dia mais profundo entre os dois. Incapazes de satisfazer as necessidades mais básicas um do outro, eles fizeram o que os seres humanos adultos geralmente fazem: separaram-se. E agora, tudo de que Paulo sentia mais falta era de uma boa noite de amor.
Foi numa sexta-feira quente de janeiro, por volta das oito da noite, que, ao deixar o escritório na Avenida Afrânio de Melo Franco, Paulo resolveu tomar algumas doses de vodka no Melt, Baixo Leblon, para aquecer, e depois seguir de táxi para a Boate Miranda, na Lagoa.
A noite prometia. Cheiro de maresia e feromônios no ar. Paulo, como de costume, teria de trabalhar no sábado. Mas o desejo acumulado de meses, sentia, estava prestes a enlouquecê-lo. Ele precisava fazer alguma coisa. Precisava respirar o ar da noite, precisava, enfim, experimentar um toque que não fosse o de sua própria mão.
Chegou sozinho ao Shopping Lagoon por volta das 22:30. A casa abriria às 23:00 para uma festa da qual Paulo não lembrava o nome. Sabia, porém, que os DJs  tocariam House Music a noite inteira. Era um sacrifício que faria alegremente, em nome das beldades que já podia ver aproximando-se, saindo dos carros e chegando em pequenos grupos.
Loiras de olhos cor de céu. Morenas de longos cabelos, lisos e negros feito um véu de seda. Negras de lábios avantajados, a pele de bronze. Todas usavam vestidinhos minúsculos e apertados, evidenciando contornos perfeitos e coxas roliças, quase sempre ainda mais valorizadas por sapatos caros de saltos finos. Era uma verdadeira feira. Paulo se sentia diante de uma barraca de delícias tropicais e o volume em sua calça aumentava só de imaginar o que podia fazer com elas.
A boate abriu. Ele passou pela vistoria do segurança brutamontes na porta e procurou um assento junto ao bar. Pediu um drink, dessa vez de cachaça. A vodka não o havia deixado bêbado o bastante. A música tocava alta e as primeiras meninas, ainda um pouco tímidas, começavam a se mexer na pista de dança. Paulo sentiu as mãos suarem. Estava nervosa. A maior parte delas parecia ser ao menos uns dez anos mais jovem que ele. Não estava psicologicamente preparado para o fracasso àquela noite. Não lidaria bem com a rejeição.
Paulo não era nenhum velho, naturalmente, mas também não era jovem. Tinha 35 anos. Moreno, mas não muito escuro. Sua pele tinha a cor do caramelo. Seus olhos, amendoados, lembravam duas gemas de topázio cor de mel. Os lábios, finos, porém proeminentes, eram emoldurados por um cavanhaque, que se unia gentilmente à barba mal feita no queixo. Tinha um pescoço viril. Nariz adunco. Usava um corte de cabelo militar, mais curto nas laterais do que no topo da cabeça – os fios ordenadamente desordenados com gel. Era alto, cerca de 1, 86 de altura. Usava calça jeans escura, sapatos e cinto de couro, blusa social moderna, daquelas que a gola e os punhos são de cores diferentes do resto. Era um homem bonito, afinal, e estava razoavelmente arrumado, embora parecesse estar vestido mais para o trabalho do que para uma caçada sensual noturna.
Pediu outro drink. Bebia pra ter coragem. Bebia para ter o que dizer.
Quando finalmente decidiu que já estava alto o suficiente para se aventurar na pista, a primeira pessoa que chamou sua atenção foi uma moça de vestido branco, que dançava desinibidamente em meio a uma roda de homens com cara de tarados.
Ela era linda de impressionar, é preciso observar. Os cabelos longos, ligeiramente encaracolados, eram de um castanho quase louro. Eles desciam em cascata, espalhando-se por entre os dedos brancos e macios à medida que ela passava as mãos pela cabeça e pelo rosto, enquanto subia e descia freneticamente. O rosto anguloso, porém delicado, exibia grandes olhos, invariavelmente fechados, como se ela não estivesse ali, como se, de fato, não houvesse mais ninguém. E os lábios – ah, os lábios – eram como figos tingidos de carmim, a mesma cor brilhante e voluptuosa das unhas, da bolsinha tiracolo e dos scarpins com forro de camurça que ela usava. O vestido branco drapeado, de um ombro só, ajustava-se com perfeição às formas esculturais do corpo esguio, evidenciando, a um só tempo, os seios e a bunda irrecusavelmente convidativos.
Paulo ainda teve tempo – e autocontrole – de observar os brincos, um belo par de corações estilizados em ouro branco, que pendiam das orelhas delicadas – a única jóia que ela usava. Instantaneamente, o perfume, um floral açucarado (Chanel n◦ 5?), apoderou-se do que havia sobrado de seus sentidos. Vê-la assim, dançando livre, leve, louca, mexeu com a coordenação motora de Paulo e suas pernas bambearam. As mãos tremiam. Por baixo de toda aquela roupa, o membro, dolorosamente enrijecido, latejava.
Paulo olhou em volta e, pela primeira vez, reparou nos outros homens. Estavam todos parados, com cara de bobos, em volta dela. Pareciam cães no cio. O olhar cheio de desejo, mas nenhuma coragem para dar o primeiro passo. Estavam todos na mesma situação.
“O que tenho a perder?”, ele pensou. Reunindo forças num suspiro, Paulo trancou a cara – aquilo que os homens fazem para parecer malvados ou confiantes – e entrou na roda. As pernas estavam duras, era difícil tirá-las do lugar, mas ele olhou diretamente para ela, esperando que abrisse os olhos e visse que estava ali.
O plano funcionou. Talvez porque alguma parte de seu corpo tivesse sentido a sutil variação de temperatura provocada pela aproximação de Paulo, a moça desconhecida abriu os olhos. Ao vê-lo ali, tentando se mover no interior da roda formada pelos outros machos, ela sorriu maliciosamente, jogando a cabeça para trás.
Impossível seria dizer o que aquele gesto significava. Satisfação por haver encontrado um homem corajoso o bastante para cortejá-la ou o regozijo de um predador que acaba de abater uma presa? No fim das contas, é bastante provável que o verdadeiro caçador num raio de 200 metros fosse aquela linda moça de vestido branco.
Ela mudou a dança que fazia, passando a insinuar-se veementemente para Paulo. A esta altura, ele sentia uma onda de relaxamento, como uma espécie de líquido frio, derramando-se por sobre suas pernas. Em poucos minutos, dançavam quase colados um no outro. As mãos dele na cintura dela, que então se virou de costas.
Ele afastou os cabelos úmidos de suor com uma das mãos e beijou-lhe o pescoço perfumado. Um arrepio de prazer e excitação se fez visível dos braços até os ombros. Ela se voltou, olhou nos olhos dele e eles se beijaram. Um beijo longo. Quente. Intenso. Paulo sentiu um calor acompanhado de um formigamento na boca do estômago. A roda em volta dos dois havia se desfeito. Eram só eles, afinal.
Talvez por causa de tudo o que já havia bebido naquela noite, a lembrança dos minutos seguintes tornaram-se um emaranhado confuso e prazeroso de beijos e amassos na memória de Paulo. Mas ele se lembrava de um orgasmo involuntário, súbito, em meio aos calores do momento. Certamente, uma consequência dos meses de privação pelos quais havia passado. Mas estava tudo bem com a consciência de Paulo. Ele não estava saciado e ela, provavelmente, nem havia notado.
Eles se enfiaram em um táxi para São Conrado, em busca do motel mais próximo, muito antes do final da festa. Se o quarto que escolheram tinha luxos, uma banheira de hidromassagem, sauna ou coisa que o valha, não perceberam. Não saberiam dizer, sequer, se o menu oferecia boas opções para os famintos. Estavam famintos o suficiente um pelo outro. Já se agarravam despudoradamente no elevador. Ela, com uma perna sobre a cintura dele. Ele, com as duas mãos por baixo do vestido dela.
Paulo despiu-a do vestido branco drapeado praticamente com os dentes, revelando uma pele quente, branca e sem manchas. O aroma de seu sexo umedecido misturava-se ao perfume que usava, liberando uma fragrância de fruta carnal, tão irresistível que Paulo sentiu a cabeça girar.
Por baixo da roupa, ela usava apenas uma calcinha. Uma calcinha de renda semitransparente quase da mesma cor da pele. E aquela maldita calcinha estava tão linda em seu corpo, ajustada à lascividade de seus quadris, que Paulo quase chegou a pensar que tinha nascido com ela.
Ele a jogou sobre a cama e precisou de um tempo. Um tempo para apenas admirar a beleza da visão antes de se debruçar sobre o corpo absolutamente entregue a sua frente.
Começou pelo pescoço – ele gostava de pescoços femininos, graciosos e frágeis –, novamente fazendo ela se arrepiar, e desceu para os seios, aonde se permitiu demorar. Ela se contorcia em cima dos lençóis, enquanto Paulo acariciava e percorria com a língua cada recôndito de sua anatomia, explorando-a como se ela fosse um delicioso mapa geográfico. Quando pensou que desfaleceria de prazer, a desconhecida conseguiu unir forças para, com um golpe de perna e braços, inverter o jogo. Agora era ela quem estava por cima, com o corpo nu de Paulo a sua mercê.
A moça segurou seus punhos com as mãos e beijou-lhe os lábios. Roçou o rosto contra sua barba, seu pescoço. Acariciou-lhe delicadamente os mamilos com a ponta da língua, fazendo-o gemer. Com a mesma impetuosidade profana, ela invadiu o seu umbigo, fazendo com que se perdesse num misto de cócegas e excitação. Desenhou o contorno de suas virilhas com a boca. Por fim, abocanhou o membro duro e suplicante entre as pernas, até esfregar o nariz no emaranhado de pelos macios e cheirosos em sua base.
Por uma razão estética, talvez, Paulo não quis despi-la da calcinha antes de penetrá-la. Ao virar-se mais uma vez por cima dela, permitiu-se admirá-la mais um pouco. Depois, deslizou a ponta do dedo indicador direito por seu corpo, dos lábios até o sexo, simplesmente afastando o tecido fino para o lado. Ela pareceu gostar, pois sorriu segundos antes de sentir a masculinidade de Paulo escorregando para dentro de si. Possuindo-lhe. Vigorosamente. Pertencendo-lhe.
Por horas a fio, amaram-se intensamente. Suaram, dançaram, fazendo com que seus corpos deslizassem um pelo outro, trocando calor e fluídos. Explodiram, por fim, num êxtase arrebatador que fez Paulo pensar que sua alma havia deixado o corpo. E talvez tivesse sido o que de fato aconteceu.
Como nunca imaginou que terminaria fazendo desde o instante em que a viu pela primeira vez, ele a abraçou, trazendo-a para junto de si. O gesto cheio de ternura, não mais desejo. Os dois nus em cima da cama. Beijou-lhe delicadamente a testa cheia de pontinhos brilhantes e adormeceu.

*******

Na manhã seguinte, Paulo acordou esparramado, de bruços sobre a cama. Os lençóis jogados de qualquer jeito. Gosto de sola de sapato velho na boca.
Ele tentou se levantar e sentiu uma pontada forte na cabeça. Ressaca. Não estava mais acostumado a beber como havia bebido na noite anterior.
Procurou a desconhecida pelo quarto. Agora, sóbrio e à luz do dia, estava ansioso para ver se ela era realmente tão encantadora quanto tinha parecido. Mas não foi capaz de encontrá-la. Ela não estava em parte alguma ali dentro.
No espelho do banheiro, uma mensagem escrita com batom: “Você foi ótimo. Obrigada.” Ela havia ido embora antes dele acordar.
“Você foi ótimo. Obrigada.”, Paulo repetiu para si mesmo. Sentou-se, ainda nu, no vaso sanitário com a tampa arriada, como se quisesse pensar sobre o que tinha acabado de acontecer. Sentiu um vazio, uma ponta de tristeza. Havia sido usado?
Riu de si mesmo pelo pensamento absurdo que tivera. Levantou-se, tentando se animar, ergueu a tampa da privada e mijou pesadamente. Que importância tinha se ela não estava mais ali? Azar o dela. Afinal, ele havia conseguido o que queria: livrara-se da abstinência forçada.
Ao voltar para quarto, notou o montinho de tecido cor de creme ao lado da cama. Era a famigerada calcinha de renda. Perplexo, ele a tomou em suas mãos e sorriu.
― Você me pegou de jeito ontem à noite, não foi? – disse em voz alta.
Esfregando a peça de tecido contra a face, Paulo inspirou profundamente. Outra vez aquela exótica e luxuriante mistura de aromas que, fazia poucas horas, o havia tirado do sério. Teve uma ereção involuntária, mas dessa vez acompanhada de tristeza. Não sabia exatamente porque, mas aquilo lhe feria. Ela não devia ter partido assim. Sequer chegaram a conversar. Não sabia nem seu nome.

*******

Nas semanas seguintes, Paulo fez de tudo pra esquecer. Tentava não pensar no assunto. Voltara ao trabalho com vigor e dedicação renovados. A princípio, parecia realmente mais compenetrado, mais calmo e bem disposto. Passados alguns dias, porém, tornara-se distraído e cabisbaixo, algo diferente da constante excitação nervosa com a qual seus colegas já estavam acostumados.
Um dia, durante uma confraternização de aniversário num barzinho, colocaram Paulo contra a parede e ele finalmente decidiu contar o que havia se passado. Falou da barra da separação, dos meses de abstinência sexual, da pressão em sua cabeça e, por fim, da escapulida ao Miranda.
A princípio, é claro, todos ficaram fascinados com a história da beldade no vestido branco drapeado. Era um círculo de marmanjos que já tinham tomado muitas cervejas, então se pode imaginar o tipo de frisson que o relato provocou. Gemidos guturais, urros abafados, suspiros exagerados e risadas nervosas, porém atentas. Um espetáculo característico de quando homens estão juntos e o assunto é mulher gostosa.
Mas a coisa quase virou piada quando Paulo resolveu falar da bendita calcinha de renda. Seus amigos, por um instante, esqueceram o abatimento que havia motivado a conversa e caíram na gargalhada, enquanto o mais gaiato deles ironizava as punhetas que Paulo vinha dedicando à ilustre desconhecida e sua calcinha abandonada.
Paulo acabou rindo também. Mais de nervoso que de graça, evidentemente. Até que finalmente um deles falou:
― Você está apaixonado, cara! Essa mulher deve ser mesmo demais pra te pegar pelos colhões assim, depois de apenas uma noite!
Outros amigos de Paulo também balbuciaram alguma coisa depois disso, mas ele não prestou atenção. Saiu do ar por um momento. Aquelas palavras o atingiram como uma flecha certeira no meio do peito.
Todo aquele tempo e ele não conseguia parar de pensar naquela noite, no Miranda e, principalmente, no que aconteceu depois, no motel. Não conseguia parar de pensar nela. Não havia lhe ocorrido, mas aquela era a verdade que, uma vez confrontada, não seria capaz de negar: estava apaixonado, perdidamente apaixonado pela moça da calcinha de renda.
― Por que você não voltou lá, na boate, atrás dela? – alguém perguntou.
Paulo não respondeu. Escondeu-se atrás de um gole de cerveja, fingiu uma animação que não tinha e o assunto acabou se desviando para a segunda grande paixão do universo masculino – futebol.
 Mas a verdade era que o questionamento não havia passado despercebido. Paulo sentiu-se envergonhado por não ter tido aquela ideia primeiro. Era tão óbvio, não era?
A conversa com os amigos, enfim, havia ajudado. Ele se sentiu mais leve, mais resoluto depois daquela noite.
Nos dois meses que se seguiram, Paulo voltou ao Miranda, marcando presença em praticamente todas as festas de House Music. Nem sinal da moça.
Decidido que estava,  pensou que poderia estar perdendo tempo indo todos os dias ao mesmo lugar. Foi quando teve início uma verdadeira peregrinação pelo circuito de baladas da noite carioca.
Primeiro a Zona Sul. Paulo passou semanas vasculhando da Gávea ao Flamengo. Cristal Lounge. The House. Espaço Maurun. Dama de Ferro. Casa Rosa. Em sua busca quase ritualística, ele conheceu os lugares mais improváveis e undergrounds da cidade atrás da dona da calcinha cor de creme em sua cama.
Ela parecia não estar em parte alguma. Não fosse pela peça de vestuário que dormia e acordava do seu lado, Paulo estaria a se perguntar se ela realmente existia. Aquilo tudo poderia estar apenas em sua mente. Uma louca fantasia, fruto de um devaneio alcoólico. Afinal, essas coisas podiam acontecer, não podiam?
Impressionados com a determinação do amigo, os colegas de trabalho de Paulo resolveram ajudar um pouco mais. Juntos, ampliaram a área de buscas para o Centro do Rio de Janeiro. Como não poderia deixar de ser, começaram pelos carioquíssimos bares da Lapa. Qualquer criatura da noite no Rio de Janeiro, cedo ou tarde, passaria por ali. Mas os dias se passaram e não havia sinal dela.
Começaram a frequentar as casas noturnas da região. Estudantina. Circo Voador. Espaço Acústica. Cine Ideal. Fundição Progresso. O olhar atento, procurando em cada canto, ainda que em vão, a musa morena em seu vestido drapeado.
As saídas depois do expediente, que por vezes ocorriam em plena terça ou quarta-feira, entretanto, começavam a tornar-se cansativas. E também dispendiosas.
A maior parte dos colegas de Paulo já havia esquecido o motivo das noitadas. Iam apenas pela cerveja e pela curtição, mas reclamações referentes aos gastos estavam se tornando cada vez mais frequentes. Os casados, fazia tempo, haviam desistido. Divertir-se no Rio de janeiro, como os cariocas bem o sabem, pode ser um luxo caro. Em uma constância muito acima do normal, até mesmo para alguém como Paulo, um publicitário de razoável sucesso profissional.   
 Então um dia, pesquisando ideias para a campanha de uma nova marca de produtos esportivos, Paulo inusitadamente deparou-se com uma imagem que mostrava um anúncio de jornal, no qual estava escrito mais ou menos o seguinte:

“Procura-se alguém para tomar conta do meu coração. Não é necessária experiência anterior. Ofereço treinamento em beijos, abraços e carinho. Remuneração inicial de muita paixão por mês. Sem aposentadoria, mas garanto felicidade para o resto da sua vida.”

Inicialmente, é claro, ele deu de rir. Em parte pela pieguice do texto em si, em parte pela irreverência da pessoa que colocou aquela imagem na internet. Mas, por alguma razão, aquilo o fez lembrar-se de sua própria situação.
A moça da calcinha de renda, era evidente, tornara-se uma obsessão, a sua própria ideia fixa. E ele mesmo não saberia dizer o quanto havia se tornado  um homem ridiculamente piegas. Passar as noites em claro, dia após dia procurando uma desconhecida pelos bares e boates da cidade? Assumira isso para si – estava em paz com a confessa consciência de sua própria insanidade.
“Por que não?”, ele pensou.
Paulo já não se importava com a chacota dos amigos. Alguns chegaram mesmo, num rompante de genuína preocupação, a recomendar-lhe ajuda profissional – do tipo que usa jaleco branco ou cinta liga, tanto faz. Mas ele estava convencido do papel definidor da internet na sociedade da informação. E quanto a isso ninguém poderia dizer que estava errado. A rede era, inegavelmente, o maior mural de exposição humana do mundo. Se havia um nível da realidade, ainda que virtual, no qual qualquer pessoa poderia ser achada, era aquele.
Paulo colocou uma foto da calcinha de renda cor de creme em todos os classificados online do país. Junto à foto, um texto sucinto, de linguagem coloquial e objetiva, explicava sua história e gentilmente convidava a verdadeira dona da peça a procurá-lo em um número de telefone ou um endereço de e-mail. Não satisfeito, divulgou um link em todos os seus perfis nas redes sociais e publicou um vídeo no You Tube.
Rápido como um meteoro em queda livre, os anúncios e o vídeo tornaram-se virais. O canal de Paulo no You Tube recebera mais de trezentas mil visualizações em menos de uma semana. Os links dos anúncios faziam-se onipresentes na página inicial do Facebook, provocando todo tipo de reações e comentários, enquanto, no Twitter, pipocavam trocadilhos escarnecedores.
Grupos feministas de ativismo virtual colocaram-lhe a pecha de machista sem delongas. Furiosamente, acusavam-lhe de colaborar para a coisificação do sexo oposto, subtraindo à mulher o protagonismo historicamente negado nas relações de gênero da sociedade patriarcal. Faltou, talvez, colocar o nome dele na boca de algum sapo gordo e asqueroso, mas isso seria um verdadeiro atentado ideológico à luta ciberespacial pelos direitos dos animais.
Paulo, é claro, sofrera um sem-número de trotes ao longo daquela semana. Mas uma coisa surpreendente aconteceu também – muitas pessoas sensibilizaram-se com sua busca e ele passou a receber centenas de e-mails de mulheres que se pretendiam as verdadeiras donas da calcinha de renda cor de creme.
A coisa havia se impregnado de uma atmosfera lúdica que Paulo não previra. A calcinha tornara-se, para muitas pessoas, um símbolo romanticamente psicológico, de maneira que possuí-la significava, antes de tudo o mais, possuir o coração de um homem.
Algumas mulheres que lhe escreveram não seriam parecidas com a musa do vestido drapeado nem depois de mil encarnações. Mas todas elas prometiam um amor eterno e uma paixão avassaladora. A calcinha era, afinal, uma espécie de ídolo furtivo. Um ídolo nas mãos de um crente desolado em busca de sua deusa desaparecida.
Cansado, frustrado e desesperançoso, Paulo decidira, por fim, desistir. Afastar-se-ia daquela loucura e, assim, retirara o vídeo do You Tube e desabilitara, temporariamente, suas contas no Twitter e no Facebook.
A moça da calcinha de renda estava perdida nas deliciosas lembranças de seu passado recente. Ia-se, cada vez mais distante na memória – na memória erótica de seu corpo, inclusive – e não podia ou não queria fazer parte do presente.
Com o coração partido uma segunda vez, procurou consolo na recordação de Alice. A pequena e encantadora Alice, sua filha de dois anos. A imagem de Alice, em seu mundinho infantil, sempre dera a Paulo a sensação reconfortante de esperança no futuro. De repente deu-se conta de que não a via desde a separação.
Ligou para o novo apartamento de Pâmela, no Cosme Velho, e descobriu que elas tinham acabado de voltar de viajem. Deprimida com a separação, Pâmela havia decidido passar os últimos dois meses e meio na casa dos pais, no interior de Santa Catarina. Ele poderia ver Alice no próximo fim de semana.

*******

Os dias transcorreram pacíficos depois que Paulo decidiu abandonar a busca pela moça da calcinha de renda. Era como se uma espécie de paz, ainda que com traços de melancolia, houvesse voltado a habitar seu coração.
Chegou a pensar em botar fogo naquela peça amaldiçoada. Era o que ela merecia. Via-se, em devaneios criativos, incendiando-a na pia do banheiro, os olhos cheios de raiva e consternação. Mas ainda não estava pronto para isso. E também não estava pronto para terminar botando fogo na casa, por acidente. O seguro não cobriria um incêndio intencional. O tempo da insensatez havia passado.
Resolveu, então, guardá-la na gaveta do criado-mudo, onde estaria, estrategicamente, ao alcance das mãos, e passou a maior parte do tempo assistindo filmes de ação na TV a cabo.
Quando finalmente a sexta-feira chegou, Paulo aguardou o fim do expediente com ansiedade e depois se dirigiu para o apartamento no Cosme Velho. Encontrou o prédio com o auxílio de um aparelho GPS. Estacionou em frente à portaria e tomou o elevador para o segundo andar. Elas estariam no 202.   
Tocou a campainha.
Em menos de um minuto ouviu o som das engrenagens da tranca e a porta se abriu. Era Pâmela.
― Oi! – ela disse, sorrindo – Estava esperando você, entre!
Paulo sentiu o sangue gelar.
Sem esperar por uma reação dele, ela entrou e ele foi atrás. Silêncio.
Havia um cheiro de perfume no ar. Um cheiro perturbadoramente familiar. Floral açucarado.
― Que perfume bom! – disse Paulo. – Não conheço esse.
― Chanel n◦ 5 – disse Pâmela, com ar de espanto e perplexidade. – Você me deu antes de nos separarmos, não se lembra?
Ele olhou atentamente para ela. Pela primeira vez em muito tempo.
Estava usando os longos cabelos, levemente encaracolados, de um tom castanho quase louro, presos atrás da cabeça em um rabo de cavalo. Os olhos grandes o observavam inquisitivamente de alto de um nariz afilado e lábios grossos, convidativos, semelhantes a figos. Não usava nenhum batom. O pescoço, encantadoramente branco, a pele sem nenhuma mancha, mas estava um pouco magra e suja. Talvez estivesse fazendo faxina quando ele chegou.
Usava uma blusinha vermelha surrada e um short jeans bem curto, que deixava à mostra boa parte das coxas grossas, deliciosamente torneadas. Era possível notar, por baixo da roupa, a silhueta esguia, os seios e a bunda rijos, avantajados. Estava descalça, por isso dava para ver os pés delicados, os dedos finos e as unhas feitas – à semelhança das mãos, cobertas apenas por uma fina camada de base transparente.
O coração de Paulo disparou.
― Era você!
― O quê? – Pâmela perguntou.
― Era você! – ele apenas repetiu, balançando a cabeça.
Pâmela respirou profundamente e baixou a cabeça um instante antes de olhar de volta para ele. A pequena Alice brincava de boneca num canto da sala.
― Não podemos começar assim, Paulo. Não podemos começar assim.
Ele concordou.
Na primavera seguinte, Paulo e Pâmela renovaram os votos de casamento. Aconteceu na Basílica do Imaculado Coração de Maria, que fica no Méier, Zona Norte da cidade. A mesma igreja em que tinham se casado e onde, anos trás, Paulo fora batizado.


FIM

3 comentários:

  1. Muito bom, bem narrado, um suspense que nos causa uma ansia para chegar no final! Parabéns.

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  2. Porra! Há séculos não lia um texto que me prendesse tanto! Intenso, um tanto quanto irreverente, causando ânsia, curiosidades...
    Nossa, simplesmente maravilhoso!

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  3. Consegui visualizar o Paulo, a Pâmela... Faço minhas as palavras da Mila!
    Pessoa, adorei!

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