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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

SANTA SARA KALI


Conhecida genericamente como a “padroeira do povo cigano” ou “a santa dos ciganos”, é quase impossível falar dos rhomá hoje em dia sem mencionar Santa Sara Kali.

Completamente desconhecida no Brasil até meados dos anos 90 (exceto pelos poucos que haviam lido Tradições Ocultas dos Ciganos, de Pierre Derlon, cuja primeira edição brasileira foi publicada em 1977, pela Livraria Bertrand), a santa foi popularizada pela novela Explode Coração (Rede Globo, 1995-1996). A partir daí, tornou-se um ícone, uma espécie de fetiche cultural, onipresente nas festas temáticas, autoproclamadas ciganas, e nos altares domésticos daqueles que se devotam às entidades espirituais ciganas.

Mas o que há de verdade nisso? Quem é, ou foi, Santa Sara? Ela é realmente a padroeira dos rhomá?

Vamos começar pela última pergunta, que tem a resposta mais imediata – quem visitar a pequena cidade francesa de Saintes-Maries-de-la-Mer, na Camargue, poderá ler, na última frase da plaquinha do lado de fora da igreja das Santas Maria Salomé e Maria Jacobé, a seguinte inscrição: dans la crypte: statue de Sainte Sara patronne des gitans, “dentro da cripta: estátua de Santa Sara, padroeira dos ciganos”. No entanto, melhor seria dizer que Sara é UMA padroeira dos rhomá; daqueles que se alinham, de alguma maneira, com as crenças católicas, é claro.

Por que dizemos UMA padroeira, com tanta ênfase no UMA? Porque Santa Sara é aquilo que chamamos aqui no Brasil de “santa de culto local”. É como a Nhá Chica ou Santa Anastácia, que contam com grande número de devotos em determinada região, mas não foram canonizadas, ou seja, não foram oficialmente reconhecidas pela Igreja Católica, e não são muito conhecidas fora daquela região.

É claro que o reconhecimento do Vaticano não é algo imprescindível para os devotos de qualquer santo, muito menos para os devotos rhomá, que, como já dissemos, não têm muita consideração pelas autoridades religiosas dos gadjé. O fato, entretanto, é que Sara não é muito conhecida fora da Camargue, assim como a Nhá Chica não é muito conhecida fora do estado de Minas Gerais. É uma santa de devoção, principalmente, dos manush e dos calé que vivem no sul da França. Sua devoção atinge até o município espanhol de Girona, próximo aos Pirineus. Para além disso, os calé que vivem em outras regiões da Espanha têm outras padroeiras, Como a Virgen de La Macarena e a Virgen del Rocío. No Brasil, considera-se Nossa Senhora Aparecida a padroeira dos ciganos, e a imagem dela é muito mais frequentemente encontrada nos lares rhomá do que a de Santa Sara.  

Por que, então, todo o frisson acerca de Santa Sara? Tudo começou com a já mencionada novela, e foi levado adiante por um sem-número de pessoas que literalmente pegaram carona no sucesso midiático. De repente, Santa Sara, ela mesma uma santa desconhecida e exótica, estava na TV, no rádio e nos livros; tornou-se portadora de toda a carga simbólica de um povo exótico, com uma espiritualidade exótica.

É bem verdade que algumas vezes a devoção fervorosa – e um tanto forçada – a esta santa chega a parecer uma condição imperativa para a afirmação da identidade romani aqui no Brasil. Você dificilmente encontrará um evento temático em que não haja um simulacro de altar para Santa Sara. Todos os anos, quando chega o dia 24 de maio, inúmeros lugares, desejosos de ostentar uma autenticidade étnica que não possuem, promovem “slavas” ao custo de um ingresso, ainda que os responsáveis por isso jamais tenham estado em uma slava de verdade e não façam a mínima ideia do que estão fazendo.

Nada será considerado “cigano” o bastante se não tiver uma imagem enfeitada de Santa Sara no meio. Lamentavelmente, ela se tornou a referência dos que não têm referência; um símbolo esvaziado de conteúdo, um recurso evocativo e estético.

Isso significa que não há pessoas e famílias rhomá sinceramente devotas de Sara? É claro que não. Eu mesmo sou muito devoto de Sara e minha família se reúne todos os anos para um bródio, que é uma das formas como os calé se referem às suas festas, em homenagem à Negrinha, que é como nós a chamamos, carinhosamente. Nada disto significa, também, que pessoas não-ciganas estão de alguma forma impedidas de nutrir sincera e honesta devoção por Sara. O fato de uma parte do nosso povo tê-la escolhido (ou ter sido escolhida por ela) não faz dela nossa propriedade. Aliás, a esta altura já deveria estar claro que os rhomá não acreditam que o espiritual, o divino e sagrado, como a própria Terra, sejam propriedade de ninguém.

Mas quem é, afinal, Santa Sara? Para responder a esta pergunta, precisamos falar de um fenômeno religioso que existe no mundo todo, mas é muito recorrente na Europa – as Virgens Negras. As Virgens Negras são estátuas femininas, invariavelmente de pele escura, que aparentemente representam a Virgem Maria, e cuja origem é envolta em mistério. Um exemplo bastante familiar ao povo brasileiro é o de Nossa Senhora Aparecida, cuja imagem surgiu, inicialmente sem a cabeça, na rede de um pescador. Outro exemplo é La Moreneta, a Virgem de Montserrat, que, segundo consta, surgiu de dentro de uma rocha atingida por um relâmpago no Montserrat, na Espanha. Santa Sara é também uma das virgens negras.  

Ninguém sabe ao certo como sua imagem foi parar naquela igreja, é como se sempre tivesse estado lá. A imagem original era um busto simples, que hoje está guardado no museu da cidade. A respeito dela, um número considerável de lendas foi criado. Alguns contam que era uma escrava egípcia, outros que foi uma sacerdotisa Lídia; há quem jure que era uma cigana ou até mesmo filha de Maria Madalena e Jesus.

A história da barquinha é a mais famosa e a festa anual de Saintes-Maries-de-la-Mer gira em torno dela. Em uma versão, Sara vinha na barquinha, com José de Arimatéia e as três Marias, Madalena, Salomé e Jacobé. Em outra, mais difundida na Camargue, ela já estava lá, quando teve uma visão sobre a chegada das Santas Marias e foi para a praia esperá-las. É por causa disso que a procissão de Sara acontece um dia antes da das Santas Marias, no dia 25.

Historicamente, porém, as datas não coincidem. Sabemos que não é possível falar de ciganos, ao menos não de rhomá, antes do século XI, o que anula efetivamente a possibilidade dessa Sara da lenda ter sido uma cigana. O mais antigo registro que existe de uma Sara naquela região é do século XVI e diz respeito a uma mulher que teria atravessado Camargue a pé, mendigando para ajudar uma pequena comunidade cristã que enfrentava grandes dificuldades.

Como começou o culto à Santa Sara em Saintes-Maries-de-la-Mer, ninguém sabe dizer. Tampouco existe alguma explicação verificada e irrefutável para o fato de os rhomá daquela região a terem adotado como sua santa padroeira. Conjecturas há, aos montes. Para alguns, o busto que havia na igreja pode ter sido não de uma santa, mas uma homenagem a esta Sara andarilha, capaz de atravessar quilômetros a pé para ajudar sua comunidade religiosa. O fato dela ser uma caminhante, que atravessava cidades mendigando, teria levado à sua associação com os rhomá.

Pessoalmente, acredito que a explicação, embora absolutamente desnecessária, seja mais simples. Sara figurava em uma cripta, que está no subsolo da igreja, à margem de seu espaço principal, exatamente como os rhomá estão quase sempre a margem do espaço principal das cidades. Ela não está apenas à margem, também está abaixo, no subsolo, de onde algumas de nossas lendas dizem que vieram os nossos mais antigos ancestrais. Não obstante, ela tem a pele escura, daí chamá-la kali, em romani, que significa “negra”. Hoje é bastante comum encontrarmos rhomá de pele bem clara, alguns até louros, de olhos verdes ou azuis, mas nosso fenótipo original – que certamente tinham os nossos antepassados ao chegarem à Europa – é a pele, os cabelos e os olhos bem escuros. Então é provável que os manush e os calé do sul da França apenas tenham visto em Sara alguém que era como eles, que os entendia e que poderia, desta forma, melhor interceder por eles junto a Duvvel, o criador.        


Não é demais lembrar que não existe uma religião romani. O culto a Santa Sara é católico, mesmo que possua muitos aspectos sincréticos, o que não é de modo algum estranho ao catolicismo. Da mesma forma, são católicos todos os cultos aos santos padroeiros que os rhomá adotam em outros lugares do mundo. Há rhomá de outras denominações religiosas, e até mesmo rhomá que não têm religião alguma para quem falar em santos padroeiros, seja Sara ou qualquer outro, não faz qualquer sentido. Eles não são menos rhomá por causa disso. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

ARETÉ - VIRTUDE, COMPETITIVIDADE E EXCELÊNCIA


Aracne era uma talentosa tecelã da Lídia. Contam os antigos versos que os pastores deixavam seus rebanhos, os atletas abandonavam os ginásios e até as ninfas saíam dos rios, bosques e fontes para ver o seu trabalho. Tamanha admiração pública acentuou a vaidade de Aracne, ao ponto de ela começar a afirmar que suas mãos teciam melhor que as de Athená, deusa dos ofícios, patrona da tecelagem.

Desafiada, Athená assumiu a aparência de uma velha senhora e veio para a terra, onde disputou com Aracne em um desafio que se estendeu por muitos dias. No termo desses dias, estavam prontas duas maravilhosas tapeçarias nas quais não era possível encontrar nenhum defeito. No entanto, ao passo que Athená bordara as façanhas e conquistas dos Deuses, Aracne resolveu bordar suas vergonhas. Isto fez com que a tapeçaria de Athená, pela virtude da sua obra, fosse considerada superior. Os deuses nunca tiveram a pretensão de ser perfeitos, mas é virtuoso e benéfico lembrar de alguém mais pelos seus acertos do que pelos seus erros.

Aracne, muito vaidosa, não aceitou a derrota que lhe fora imposta. Desfazendo sua própria obra, enforcou-se com os fios que outrora havia usado para tecer. Athená, compadecida, socorreu-a antes do último suspiro, transformando Aracne no animal que hoje conhecemos como aranha, sempre empenhada numa obra de tecelagem sem defeitos, mas por quase todas as pessoas considerada desagradável, um símbolo de sujeiras e impureza.

Em outra ocasião, Mársias, que havia encontrado uma flauta que Athená havia criado e da qual se desfizera, tornou-se um músico tão perfeito que encantava os ouvidos de mortais e imortais. Envaidecido das próprias habilidades, ele ousou desafiar Apollo, deus patrono das artes, em cujo cortejo caminham as próprias musas, para um duelo em que o vencedor poderia fazer o que quisesse com o perdedor.

Mársias tocou linda e profundamente, mas Apollo, com sua lira dourada, era mesmo insuperável. Como resultado da peleja, Mársias, o perdedor, fora pendurado em uma árvore e esfolado vivo...
Apollo, sempre excelente, pode, contudo, ser bastante cruel... E foi a sua crueldade que o fez desafiar o próprio Eros, filho alado de Afrodite, fonte de todo sentimento. Um dia, enquanto praticava com seu arco prateado, o filho de Leto acertou o talo de uma maça em uma macieira que estava muito distante. Eros, que havia assistido a demonstração maravilhado, se empolgou. Colocando-se ao lado do Divino Flecheiro, disparou uma de suas setas e logrou acertar a mesma maçã antes que ela caísse ao chão.

Apollo não gostou. Disse ou Infante Divino: “Afasta-te e me deixa praticar em paz, que o arco não é brinquedo para as mãos de uma criança.” Eros, aborrecido, respondeu: “É certo que tuas flechas são infalíveis. As minhas, pois, também nunca erram o alvo.” E, dizendo isso, o deus do amor se afastou, sacando duas flechas de sua aljava – uma de ouro, que infundia o puro e verdadeiro amor, outra de chumbo, capaz de causar irreversível aversão. A seta dourada mirou no coração de Apollo. A cinzenta, saturnina, o da ninfa Dafne, que passeava ali por perto. Apollo, tomado de um amor irresistível, cortejou a ninfa que, tomada de aversão irresistível, fugiu dele até se transformar em um loureiro...

O que esses mitos ensinam? Muitas coisas... A linguagem metafórica e poética dos mitos é capaz de falar sobre muitas verdades em histórias simples como essas. Vejo muitas pessoas falando sobre a arrogância, algumas atribuindo-a aos próprios Deuses. Isso certamente é uma possibilidade. Para mim, no entanto, esses mitos falam sobre virtude (ἀρετή). A virtude, que, mais do que fazer o que faz com excelência, é capaz de, em última instância, reconhecer-se no outro.

Nenhuma dessas passagens, afinal, teria acontecido de maneira tão terrível se, pela medida da comparação, um personagem não tivesse se considerado melhor do que o outro. Para essa medida, os antigos helenos tinham um termo, o único ato humano realmente desprezado pelos Deuses – húbris. Húbris significa desmedida. Desmedida é colocar as coisas fora de seu lugar.


Muitas sociedades humanas, como a helena, foram, e são, extremamente competitivas. Mas a competitividade, em si, não é uma coisa ruim. A competitividade ruim, creio que todos conhecemos. A competitividade boa, com a qual devemos nos familiarizar, é aquela que, pelo exemplo da excelência do outro, nos leva a buscar a nossa própria. E excelências, uma vez excelentes, nunca se comparam na expectativa de estabelecer superioridade. Pelo contrário, no momento em que incorre neste vício, a desmedida, a excelência se torna menos excelente e tropeça na armadilha de Éris: a vaidade. 

sábado, 26 de novembro de 2016

A DEUSA HÉCATE



Deusa Lunar do conhecimento velado, das transições e das mudanças, com poder no Céu, na Terra, no Mar, e também no Hades; patrocinadora de riquezas, das honras, da vitória e das boas e rápidas viagens; protetora dos recém-nascidos, conselheira dos mortais, já que é a dona das estradas e das encruzilhadas duplas e triplas, e de todas as entradas (estes quatro pontos simbolizam o curso e as opções da vida humana); assistente de todos os decretos e de cada cerimônia de purificação.

De acordo com as diferentes versões mitológicas, a Deusa Hécate parece ter nascido:

1. Da Deusa Noite (Baquílides, fragmento 1Β, «Εκάτα δαϊδοφόρε, Νυκτός μεγαλοκόλπου θύγατερ» “Hécate, portadora do archote, filha da Noite de amplo seio”); 

2. Dos titãs Perses e Astéria (de acordo com: Teogonia, de Hesiodo, vv.409-411; Hino Homérico a Deméter; Pseudo-Apolodoro 1.8; Licofrão de Cálcis 1174; entre outros). Por isso é chamada Perseida, apesar de existir uma versão na qual se indica Zeus como seu pai; 

3. De Zeus e Astéria (nos informa Museu de Atenas, de acordo com o comentário de Apolônio de Rodes);

4. De Aristeu (Ferécides de Siro, de acordo com o comentário de Apolônio de Rodes);

5. Da deusa Deméter (comentário de Apolônio de Rodes 3.467);

6. Da deusa Leto (de acordo com Eurípides);

7. De Zeus e Feraia, filha de Éolo (que a abandonou em uma encruzilhada tripla, de acordo com o comentarista Teócrito), e por isso recebe o epíteto “Feraia”; 

8. De Zeus e Deméter – que inclusive ajudou a encontrar sua irmã Perséfone;

9. De Zeus e Hera;

10. Dos titãs Céos (ou Coio) e Febe, tendo como irmãs as deusas Leto e Astéria; 

11. Do Tártaro.

A soberania mitológica da deusa Perseida (Hécate) no Céu, na Terra e no Mar foi exercida desde a época dos titãs, muito antes da Titanomaquia, na qual o poder foi assumido pelos deuses vencedores. Zeus, na verdade, a honrou como sua própria filha por participar do conflito ao lado dos Deuses, e confirmou seus domínios pré-existentes. Ela, por sua vez, voltou a ajudar os deuses do Olimpo na Guerra contra os Gigantes (Gigantomaquia), na qual matou o Gigante Clício, batalhando ao lado de sua mãe, a Noite (Nykta). 

ETIMOLOGIA DO NOME

O nome da Deusa deriva do advérbio “ekas” «εκάς» que quer dizer longe, e do «εκάθεν» = remoto.  No dicionário Liddell & Scott, define-se como “Aquela que vai até o fim”, isto é, a que alcança os limites.

Uma etimologia possível do nome também é aquela que vem do «εκάτερος», que quer dizer cada um dos dois, não juntos, mas separados (que é o contrário de «αμφότεροι», que quer dizer ambos). Neste caso se destaca o duplo vínculo da Deusa com o mundo dos vivos e com o dos mortos.

O CARÁTER DA DEUSA

O grande número de nomes que derivam do nome de Hécate que encontramos na região de Cária, na Ásia Menor, (ex.: Hecateu – aquele que pertence à Hécate, Hekatomnus, etc.) nos mostra um caráter bem diferente e sem relação com os elementos obscuros que foram falsamente atribuídos à Deusa pelo ocultismo da Antiguidade Tardia.

Na região da Trácia, Ela foi honrada especificamente como o lado feminino do deus Hermes, protetor dos limiares, das portas das casas, da cidade e dos templos (os nomes Pileu e Propileu vêm da palavra Pyli = porta), das ruas e das encruzilhadas duplas e triplas (Hódios e Enódios também são outros nomes de Hermes), o qual, em alguns casos, se apresenta com três ou quatro cabeças (Três cabeças em referência à natureza ternária do logos filosófico; ou quatro cabeças em referência ao seu caráter polivalente – de acordo com Eustácio de Tessalônica, comentarista de Homero). 

Ela compartilhou da natureza de Hermes como condutor de almas (psychopompos), como também o poder dele nos quatro níveis (de acordo com Eustácio de Tessalônica, comentador de Homero: “Hermes Ctônio é Celestial, Μarítimo, Subterrestre e Condutor de Almas”).

Esta natureza hermética da Deusa foi adotada em várias regiões gregas, tendo absorvido, em muitas delas, características da deusa Ártemis ou da deusa Selene (como vemos em Ésquilo), ou ainda da deusa Nêmesis, com a qual tem, de fato, muitas semelhanças. Nos dois últimos casos, se adicionarmos o elemento supersticioso que havia nas regiões mais rústicas e as diferentes religiões que existiam no mundo helênico, a Deusa será associada à magia.

Em outros casos, a Deusa Hécate foi identificada com Deméter, Rhéa e Perséfone, e durante o período helenístico e romano de Creta foi identificada com Diktynna.  Depois do período clássico, a Deusa começou a ser representada como triforme, quer dizer, com três faces/rostos, acompanhando as representações do deus Hermes.  

Um culto sacrílego da Deusa é invocado durante a Antiguidade Tardia, vindo especialmente de feiticeiros orientais, necromantes e também de “teurgos” vulgares, como suposta divindade da magia e das artes necromânticas
(adivinhação por meio dos mortos/com invocação aos mortos), por causa do sincretismo com a deusa sumeriana Ereshkigal, que nós encontramos identificadas (Hécate-Ereshikgal) numa invocação em um papiro mágico do quarto século da nossa era.

No mesmo nível, mas com origem nas superstições populares e no folclore, vem a correlação Dela com o suposto fantasma “Empusa”, ou Lâmia ou Mormo («Έμπουσα» ή «Λάμια», ή «Μορμολύκειον»), ou também algumas referências ao seu nome em placas mágicas de imprecação. Não há, no entanto, nenhum registro acerca de personagens históricas que A adorassem como uma divindade obscura dos feiticeiros e das bruxas.

SANTUÁRIOS E OFERTAS

A origem de Seu culto é puramente helena e vem pelo menos de antes do século IX a.E.C., já que na Teogonia de Hesíodo (versos 416-420) nós podemos ler o seguinte: “ΚΑΙ ΓΑΡ ΝΥΝ, ΟΤΕ ΠΟΥ ΤΙΣ ΕΠΙΧΘΟΝΙΩΝ ΑΝΘΡΩΠΩΝ ΕΡΔΩΝ ΙΕΡΑ ΚΑΛΑ ΚΑΤΑ ΝΟΜΟΝ ΙΛΑΣΚΗΤΑΙ, ΚΙΚΛΗΣΚΕΙ ΕΚΑΤΗΝ. ΠΟΛΛΟΙ ΤΕ ΟΙ ΕΣΠΕΤΟ ΤΙΜΗ ΡΕΙΑ ΜΑΛ’, Ω ΠΡΟΦΡΩΝ ΓΕ ΘΕΑ ΥΠΟΔΕΞΕΤΑΙ ΕΥΧΑΣ ΚΑΙ ΤΕ ΟΙ ΟΛΒΟΝ ΟΠΑΖΕΙ, ΕΠΕΙ ΔΥΝΑΜΙΣ ΓΕ ΠΑΡΕΣΤΙΝ” (Hoje ainda, se algum homem sobre a terra com belos sacrifícios conforme os ritos propicia e invoca Hécate, muita honra o acompanha facilmente, a quem a Deusa propensa acolhe a prece; e torna-o opulento, porque ela tem força – tradução de J.A.A. Torrano em Teogonia: A Origem dos Deuses. Iluminuras, 2009.).   

Além disso, o autor William Berg “terminou” a questão da origem da Deusa em 1974, quando escreveu e apresentou o conhecido artigo “Hecate: Greek or Anatolian?” no periódico “Numen” (volume 21, fasc. 2, pp. 128-140).

Na Trácia, como dissemos anteriormente, simplesmente foram adicionados ao Seu culto alguns aspectos herméticos. O culto heleno a Hécate fortaleceu-se mais na região de Cária, absorvendo todos os cultos nativos relacionados a Ela, na época do rei Hecatomno (regência 391-377 – cujo nome se deriva do nome da Deusa e nos explica porque seu culto foi tão fortalecido), que foi sucedido pelo rei Mausolo (regência 377-351). Os mais importantes centros de adoração da deusa na região de Cária eram a pequena cidade de Lagina, da qual a deusa Hécate era padroeira e onde foi chamada “Salvadora, Máxima e Ilustríssima” e também na cidade vizinha de Lagina, Estratonicéia (que hoje é chamada de Eskihisar), que foi fundada pelo rei Antíoco I, o Salvador, na margem esquerda de um afluente do rio Meandros Marsias. O antigo nome de Estratonicéia era Idrias e, antes deste, Hecatésia (durante o reinado de Antonino Pio, os protetores da cidade eram a trindade Zeus Maior, Hécate Salvadora e Tyché [Sorte]).

A proeminente importância da Deusa na região da Cária durante os períodos helenístico e romano foi decisiva para levar muitas pessoas a crer que Seu culto tinha especificamente este local como berço. Houve também uma grande disseminação do culto de Hécate em diversos lugares da região da Frígia. O ponto de partida para todos eles, no entanto, são os períodos helenístico e romano.

Na ilha de Egina, esta Deusa tinha um templo muito importante. Pausânias o descreve em sua obra “Korinthiaka” da seguinte forma: “Hécate é a Deusa mais honrada entre os habitantes de Egina e uma vez por ano eles fazem uma cerimônia dedicada a ela, que, pelo que dizem, foi estabelecida por Orfeu, o trácio. Dentro do recinto existe um templo com o xoano [estátua de madeira dedicada a um Deus] que é obra de Miron, com um rosto e um corpo. Acho que Alcamenes foi o primeiro a esculpir três estátuas de Hécate unidas em uma, a qual os atenienses denominam Epipyrgidia [aquela que está entre as torres] e está instalada perto do templo de Athená Niké” (trecho 2.30.2).

Em Atenas, a Deusa tinha um templo no início do Caminho Sagrado [Iera Odos] e foi venerada em muitos cultos domésticos junto a Zeus, Héstia e Apolo. Neste culto doméstico, Hécate era provedora de prosperidade e boa sorte, sendo invocada sob o epíteto de Kallisti [A Melhor], e os habitantes faziam, uma vez por ano, uma grande festa com procissão e sacrifícios na região de Agra, em lembrança da vitória em Maratona. Se a nossa fonte não exagera, como observado por William Berg, existia na entrada da maioria das casas atenienses uma estátua da Deusa, que se chamava Hekataion ou Hekateion.
Nesta mesma época, outros importantes centros de culto da Deusa eram Esmirna, Halicarnasso, Heracléia do Latmos, Cnido, Trales, Argos (perto do Santuário dos Dióscuros, com uma estátua de mármore feita por Escopas e uma de bronze feita por Policleto), Bizâncio, Afrodísias (como Propylaia [protetora das entradas]), Rodes (também chamada de Propylaia, junto com Hermes Propylaios e Apolo Apotropaio [hediondo]), Cós, Epidauro, Andros, Titane de Sicião, Siracusa, Tasos (com estátuas e altares em três diferentes entradas da cidade), Selinunte (onde protegia a entrada do Santuário de Deméter Maloforos), Pireu, Cirene (onde Ela compartilhava seu templo com Hades e Perséfone) e, por fim, Samotrácia.

O objeto devocional mais antigo foi descoberto em Atenas e é uma pequena estatueta (eidolio) de terracota do século VI a.E.C., representando Hécate entronizada. Em muitas regiões havia o costume de oferecer, após a limpeza ritualística das casas, banquetes cerimoniais em honra à Deusa. Isto acontecia durante o período da noumênia (cerimônias feitas durante o primeiro dia da Lua Nova) em encruzilhadas de três vias (tríodes), com diversas comidas (como bolos de mel, ovos, peixes, etc.) os quais, naturalmente, eram consumidos pelos animais e pássaros noturnos (raramente, também, por pessoas atingidas pela pobreza, que esperavam por perto nestas ocasiões, o que era considerado um miasma [impuro]). Estas ofertas eram chamadas Hekataia ou Hekátea ou ainda Hekatísia, os Jantares de Hécate.

Um Templo da Deusa Hécate foi erguido no século V a.E.C. na entrada da cidade de Mileto, onde Ela era honrada por uma trupe musical especial e possuía dois altares (um do século VI, outro do século I a.E.C.) e seu culto estava associado ao do deus Apolo, em Dídimos, com uma procissão que começava em Mileto e terminava no santuário e oráculo dos Gêmeos. Nesta procissão havia dois objetos misteriosos, um dos quais consistia numa coroa que era lavada com vinho puro (sem adicionar água, coisa que se costumava fazer durante as festividades para que os presentes não ficassem bêbados) e depositada diante da estátua de Hécate, nas “portas da frente”, enquanto o outro objeto era encaminhado para o interior do templo de Apolo. O primeiro peã da procissão era dirigido à Deusa Hécate.

Os símbolos da Deusa são os dois archotes, o strophalos hecatino, a chave (que fecha as portas para os perigos e abre para as bênçãos) e o punhal. Seu animal sagrado
é o cão de guarda (como é também o da Protetora dos Partos, a deusa Ilithyia Genetyllida) e suas árvores sagradas são o carvalho, a aveleira, o álamo negro (cuja dupla cor das folhas simboliza o duplo vínculo da Deusa com o mundo dos vivos e com o dos mortos) e o cipreste.  As ofertas dedicadas a Ela são o mel, sua flor sagrada, a abrótea, e o acônito (wolfsbane). O animal que se sacrifica a ela (iereio) é o touro negro (que era sacrificado em Atenas a cada Ano Novo), a ovelha negra e o cachorro negro (em Trácia, Samotrácia, Beócia, Macedônia e Cólofon da Jônia). Eustácio de Tessalônica, sacerdote cristão, nos transmite a informação controlada – por causa da sua condição – de que eram sacrificadas a Ela mainides (μαινίδες. Em grego moderno: tseroulas [τσέρουλα], espécie de peixe comum nos mares gregos e em todo o Mediterrâneo, costumeiramente preparado como petisco. Lembra vagamente a nossa sardinha.) com propósitos apotropáicos. Ele diz: “ΔΙΑ ΤΟ ΔΟΚΕΙΝ ΤΗΝ ΕΚΑΤΗΝ ΜΑΝΙΩΝ ΑΙΤΙΑΝ ΕΙΝΑΙ” (“Por causa da crença de que Hécate é a causa dos frenesis.”).

Os epítetos e títulos pelos quais a deusa Hécate é invocada são: Angelos ou Angelia (mensageira), Apotropaia (aquela que afasta o mal), Dadoukhos (portadora das tochas), Einodia ou Enódia (das ruas/caminhos), Hegêmone, Thirobromos (aquela que é anunciada com rugidos e uivos das bestas), Kleidoukhos ou Kliidoukhos (A que traz as chaves), Kourotrophos (aquela que cuida das crianças), Krokopeplos (que usa peplo amarelo), Lampadiphóros (Portadora de Velas), Nocturia ou Nyktipolos (aquela que perambula durante a noite por vários lugares), Phýlax (Guardiã), Pylaia (que esta nas portas = pyles) e Prothyrea (como no hino de Proclus devotado à Hécate e Jano), Skylakitis (acompanhada por cães), e Skylakagetis (que lidera os cães), Soteira (Salvadora), Tauropolos (que domestica os touros), Triaukhenos e Trikefalos (que tem três pescoços e três cabeças), Trioditis (que protege as três vias/encruzilhadas), Iixikhthon (que rasga a terra), Philérimos (que gosta da solidão) e Ouresiphoitis (Solitária. Como caminham solitários os espiritualmente rústicos em meio à multidão), Phosphoria (A que traz a luz; A que tem nas mãos a aurora boreal), Khthonia (Subterrânea), e muitos outros. 

O Hino Órfico dedicado a Ela nos diz:

“ΕΙΝΟΔΙΑΝ ΕΚΑΤΗΝ ΚΛΗΪΖΩ, ΤΡΙΟΔΙΤΙΝ, ΕΡΑΝΝΗΝ, ΟΥΡΑΝΙΑΝ, ΧΘΟΝΙΑΝ ΤΕ ΚΑΙ ΕΙΝΑΛΙΑΝ, ΚΡΟΚΟΠΕΠΛΟΝ, ΤΥΜΒΙΔΙΑΝ, ΨΥΧΑΙΣ ΝΕΚΥΩΝ ΜΕΤΑ ΒΑΚΧΕΥΟΥΣΑΝ, ΠΕΡΣΕΙΑΝ, ΦΙΛΕΡΗΜΟΝ, ΑΓΑΛΛΟΜΕΝΗ ΕΛΑΦΟΙΣΙ, ΝΥΚΤΕΡΙΑΝ, ΣΚΥΛΑΚΙΤΙΝ, ΑΜΑΙΜΑΚΕΤΟΝ ΒΑΣΙΛΕΙΑΝ, ΘΗΡΟΒΡΟΜΟΝ, ΑΖΩΣΤΟΝ, ΑΠΡΟΣΜΑΧΟΝ ΕΙΔΟΣ ΕΧΟΥΣΑΝ, ΤΑΥΡΟΠΟΛΟΝ, ΠΑΝΤΟΣ ΚΟΣΜΟΥ ΚΛΗΪΔΟΥΧΟΝ ΑΝΑΣΣΑΝ, ΗΓΕΜΟΝΗΝ, ΝΥΜΦΗΝ, ΚΟΥΡΟΤΡΟΦΟΝ, ΟΥΡΕΣΙΦΟΙΤΙΝ, ΛΙΣΣΟΜΕΝΟΣ ΚΟΥΡΗΝ ΤΕΛΕΤΑΙΣ ΟΣΙΑΙΣΙ ΠΑΡΕΙΝΑΙ ΒΟΥΚΟΛΩι ΕΥΜΕΝΕΟΥΣΑΝ ΑΕΙ ΚΕΧΑΡΗΟΤΙ ΘΥΜΩι”.

(“Enódia Hécate celebro, Trívia [Trioditis], amável, celeste, terrestre e marinha, do cróceo véu [Krokopeplos], tumular, celebrando baqueus entre almas de mortos, filha de Perses [Perséia], amiga do ermo [Philérimos], que se ufana com cervos, noturnal [Nocturia], protetora dos cães [Skylakitis], rainha inflexível, do frêmito feral [Thirobromos], sem armas, de forma incombatível, pastora de touros [Tauropolos], soberana detentora das chaves de todo o cosmo [Kleidoukhos]], Hegêmone, ninfa, nutriz de jovens [Kourotrophos], andarilha das montanhas [Ouresiphoitis]. Suplico, donzela, que compareças aos consagrados ritos, benfazeja ao boiadeiro e sempre com um grato coração.” – Tradução de Rafael Brunhara, disponível em: http://primeiros-escritos.blogspot.com.br/2012/10/hino-orfico-1-hecate.html.)

A HÉCATE DOS ROMANOS


A equivalente romana de Hécate é a Deusa Trívia, (ou seja, das três vias, Trioditis).  Como Seu culto foi absorvido pelos romanos já na Antiguidade Tardia, Ela também foi objeto de superstições (quer dizer, de uma equivocada percepção obscura dos Deuses), que advém da percepção popular/folclórica ou de feiticeiros e “teúrgos” vulgares. Além disso, a imagem repulsiva Dela, como um monstro que provoca terror, não é mais que uma criação da literatura romana tardia. Em contraste, a Deusa foi venerada pela aristocracia de Roma com grande piedade até o século IV E.C., havendo sacerdotes que adotaram Seu nome heleno, assim como o nome do deus Dioniso (CIL[1] XI 671, CIL VI 500, 504, 507, 510, 1675 e 31940). 

Vlassis G. Rassias, Março de 2015.

Traduzido para o português por: Emilia Arsinoe.
Revisado por: Mikka Capella e Jota Oliveira.
Originalmente publicado em: http://rassias.gr/1087HECATE.html



[1] Corpus Inscriptionum Latinarum.




quarta-feira, 17 de agosto de 2016

PRIMEIRO HINO DÉLFICO A APOLLO



"Ouçam-me, vós, Senhoras da floresta intocada de Helicon
Bravas filhas de Zeus, Magnífico!
Abram suas asas e, com mágicas palavras, seduzam seu irmão,
Febo de louras melenas, que acompanhado pelas ilustres donzelas de Delfos, começa a sua jornada nos picos gêmeos do Parnasso para ir até as águas cristalinas de Castália, atravessando,
pelo promontório délfico, o auge profético.
Eis gloriosa Ática, nação da grande cidade que,
pelas graças da guerreira Tritônia,
Ocupa uma encosta protegida de todo o mal.
No altar sagrado, Hefestos consome as coxas de novilhos,
misturado às chamas, o vapor arábio eleva-se em direção ao Olimpo.
O lotus, de agudo farfalhar, murmura alto a sua canção, e a lira dourada, com melodiosa doçura, responde à voz dos homens.
E todo o exército dos poetas, moradores da Ática, cantam a sua glória, deus famoso por tocar a lira, filho do grande Zeus, ao lado deste pico coroado de neve, oh, tu revelas a todos os mortais os oráculos eternos e infalíveis.
Eles cantam como conquistaste o profético tripé, guardado pelo violento dragão, quando, com tuas setas, perfuraste o impressionante monstro, tortuosamente enrolado, de modo que, proferindo muitos silvos temerosos, a besta expirou.
Eles cantam também..."

(138 a.E.C., autor desconhecido.)

O fragmento apresentado, em livre tradução, foi encontrado gravado em pedra, no tesouro dos atenienses do santuário de Apollo, em Delfos. Lamentavelmente, está incompleto. Sobre seu autor, sabe-se apenas que era ateniense. Constitui o mais antigo registro da música helena que chegou até os nossos dias e pode ser representado, em uma melodia bastante próxima da original, graças às notações musicais que estão gravadas junto com a letra. 



  



terça-feira, 16 de agosto de 2016

PORQUE NOS DENOMINAMOS HELENOS "ÉTNICOS" E PORQUE, POR MOTIVOS DE DIREITO PRÓPRIO, NOSSA RELIGIÃO É CHAMADA DE "ÉTNICA".




A premissa básica para o que se segue é que a Etnia[1] Helena tem continuidade histórica ininterrupta até os nossos dias, e que a história não é apenas diferente, mas completamente contrária à versão contada pelos respectivos conquistadores e tiranos, militares ou religiosos. Portanto, o que vamos dizer não se relaciona com o que dizem aqueles que afirmam ou aceitam que o nosso povo foi completamente cristianizado, e, por 16 séculos, sobreviveu apenas nos sinais, percepções e na religião dos conquistadores.

Ao contrário do que é dito ou aceito, os modos e maneiras de nossa religião, como foram transmitidos, permanecem inalterados e imperturbados, formando o material que mantém coesa a Etnia Helena desde a Antiguidade Tardia até o tempo de Gemisto Pletão e, desde então, até os nossos dias. Portanto, os esforços para a rehelenização e restauração da Religião Helena Étnica, nos últimos 30 anos, não são um fenômeno “neopagão”, como afirma a propaganda da teocracia ortodoxa, mas um reerguer-se infinitesimal da Etnia Helena no espaço público de nossa terra-mãe.

A religião da perseguida Etnia Helena é chamada “Religião Étnica Helena”, enquanto seus próprios membros a definem como “Étnica Helena”. O porquê é analisado em detalhes imediatamente a seguir:

A palavra “etnia” foi usada por nossos ancestrais para designar um conjunto distinto de pessoas com uma identidade coletiva comum, que sustentam uma origem comum, uma língua comum, uma adoração comum aos mesmos Deuses e um mesmo sistema de valores morais e formas cotidianas (“A Helenidade, que é a similaridade no sangue e na língua e nas instituições comuns dos Deuses e dos sacrifícios e da ética, move-se no mesmo caminho.”[2]). A palavra “etnia” também deriva da palavra “ethos”, que significa sistema de valores, tradições e costumes.

A “etnia” contém os “genē” (as “gentes”, em latim), ou seja, as gerações, um grupo de pessoas com a mesma origem sanguínea. O “geno” do tempo de Heródoto em diante foi uma subdivisão da “etnia”, mas também da “fratria” ou das “fratrias” e das “tribos”.

“Étnico” é aquilo que é próprio da etnia (a própria etnia ou aqueles que pertencem a ela), como os “étnicos” são aqueles que pertencem aos genē ou às “gentes”. Existem quatro características comuns aos membros de uma etnia: a linguagem, que pode ser ensinada e falada por qualquer pessoa interessada de outra origem étnica, uma determinada origem, que é o significado original da palavra “étnico”, uma religião própria e o ethos típico que caracteriza a etnia. O que cai no âmbito da etnia é, portanto, étnico.

Antes do advento do cristianismo, que pela conversão e pelo batismo afastou as pessoas de suas etnias, integrando-as numa espécie de anti-etnia, vulgarmente denominada cristandade, os povos étnicos eram definidos unicamente pelo nome da etnia a que pertenciam. Por exemplo, quando se dizia que alguém era Heleno[3], isto significava, automaticamente, que aquela pessoa participava plenamente da Etnicidade Helena, ou seja, dos costumes e da tradição religiosa dos Helenos.

Mais tarde, os povos cristianizados formaram impérios cristãos, monarquias legitimadas pela “graça de Cristo”. Passados 2-3 séculos da consolidação da etnocracia[4] cristã, o respectivo nome étnico de nossos antepassados foi recuperado, embora apenas superficialmente. Havia sido transformado em nacionalidade. O cruzado alemão, por exemplo, que dizimou os povos étnicos do Báltico[5], não tinha qualquer relação cultural com os também alemães (ainda étnicos) que foram massacrados juntamente com suas famílias em Verden, pelo rei franco Carlos Magno, porque se recusaram a ser batizados[6]. Assim, cidadãos cristãos ortodoxos gregos de hoje, no moderno Estado grego, não guardam nenhuma relação cultural com os helenos que construíram o Parthenon e que helenizaram os judeus do Egito e da Palestina. Claramente, então, uma coisa é a nacionalidade “alemã” ou “grega” e outra é a etnicidade alemã ou helena, a saber, o alemão étnico ou o heleno étnico. 

Algumas pessoas, atacando recentemente a nossa autodeterminação como “Helenos Étnicos” e, é claro, a autodeterminação da nossa religião como “Religião Étnica Helena”, usaram um argumento tolo e anti-histórico, segundo o qual “étnico” seria a tradução de “gói”, um termo pejorativo que os judeus usaram e ainda usam para se referir ao resto da humanidade. Mas sabemos que a suposta “Septuaginta”, bem como a maioria dos textos do chamado “Antigo Testamento” não foram originalmente escritos em grego pelos seguidores alexandrinos de Jeová, para seus correligionários do reino de Ptolomeu, que em sua maioria não falavam mais a língua grega[7]. O uso do termo “étnico”, portanto, significa, no “Antigo Testamento”, aquele que segue a sua própria etnia e, por isso, não é um judeu. É da mesma forma no que toca aos cristãos, quer dizer, o indivíduo que insiste em se manter fiel à sua etnia, consequentemente, não adere ao cristianismo por essa razão. Notamos, finalmente, sobre este assunto, que a palavra “gói” é usada pelos judeus para se referir aos cristãos, que, certamente, não podem ser considerados “étnicos”.

O argumento tolo de que não devemos nos identificar como "Helenos Étnicos", porque nossa autodeterminação seria uma forma de “extradeterminação”, ofende a inteligência de qualquer homem sério, uma vez que deprecia a própria designação “heleno”. De acordo com eles, provavelmente nem como helenos deveríamos nos identificar, já que a palavra foi usada por muito tempo como um insulto por judeus e cristãos.

Para além destes disparates recentes, nós, “Helenos Étnicos” não desaparecemos porque as hordas negras destruíram nossos santuários e decretos assinados por alguns imperadores romanos do Oriente tiraram completamente o nosso direito de existir. Apenas nos organizamos na obscuridade e, por todos os meios e sacrifícios, conseguimos garantir, na segurança da clandestinidade, uma passagem segura para o futuro. Essa organização foi também uma aliança sagrada, uma promessa de retorno, restauração e justiça aos Deuses e aos nossos ancestrais. Ao longo dos séculos, no curso deste caminho clandestino, o “Helenismo Étnico” deu, mesmo ao mais lento dos homens, inúmeros sinais da sua existência.

No período entre 1200-1210, vários governantes gregos locais, escravizados pelos romanos do Império Oriental, depois Teodoro I e II Láscaris, do chamado “Império de Nicéia”, e, finalmente, o filósofo Jorge Gemisto Pletão, no início do século XV, estabeleceram diferenças entre romanos e helenos, valendo-se do termo geno para expressar a sua consciência étnica (“nós, sobre quem você é governante e rei, somos de origem helena, como evidenciado pela nossa língua e cultura tradicional.”[8]).

Em face do perigo representado pela restauração do termo “geno”, a Igreja vem agindo, numa prática já bem conhecida, para deturpar o seu sentido original e apropriar-se de seu significado. Antes do fim da época dos mercenários helenos stratioti[9], que por quase dois séculos (XV e XVI E.C.) lideraram espiritualmente a maioria das comunidades helenas na diáspora[10], a palavra “geno” estava imbuída de significado étnico, que foi suplantado para designar comunidades de gregos ortodoxos em qualquer lugar, coincidindo, de alguma maneira, com o “millet” otomano. Esse é o uso específico que a teocracia ortodoxa vem explorando até hoje. O arquimandrita Dositheos Kanellos, por exemplo, escreve que: “o que significa Geno? A palavra Geno é grafada com inicial maiúscula, e é assim que deve ser. Geno é a nação santa, a família real e sacerdotal dos gregos ortodoxos. É o Geno que fala a língua mais bonita do mundo, o grego. É o Geno que deu ao mundo os Santos, Padres, Mártires e Confessores. É o Geno abençoado dos gregos... É o Geno que se identifica com a Igreja, nossa Mãe. É o Geno preservado como a menina dos olhos da ortodoxia. É o Geno bendito, ordenado pelo Senhor Nosso Deus.”

A perseguida Etnia Grega respondeu à apropriação vulgar do termo “geno” restaurando a palavra “etnia” muitas décadas antes dos termos “nação” e “pátria” serem retomados no contexto da Revolução Francesa. Representantes dos núcleos de resistência helenos na diáspora, que tinham preservado os costumes helenos, reuniram-se no ano de 1730, em Trieste (onde, havia duas décadas, os gregos ortodoxos dominavam), e reafirmaram o Helenismo como uma “etnia”, em sua antiga acepção. Paralelamente, definiram um sistema de costumes canônico, sistematizado pela religião, mas, também, pela identidade étnica[11]. No final do mesmo século, durante a relativamente curta galocracia nas ilhas jônicas (1797-1798)[12], muitos foram pegos de surpresa pelas reivindicações de pessoas estranhas, que pareciam ter surgido do nada, conclamando a volta da Religião Étnica Helena e da democracia direta, enquanto, no mesmo período (1797), no Thourios, Rigas Feraios[13] exortava os ortodoxos a agirem como irmãos, uma vez que pertenciam à mesma etnia. 

Começamos com o pressuposto da continuidade histórica ininterrupta do Helenismo Étnico, desde a Antiguidade tardia até os dias atuais. Mesmo que isso não fosse verdade, no entanto, como muito gostariam os teocratas ortodoxos e vários outros meios, com toda a sorte de interesses, o Helenismo Étnico tem registro histórico de sua reaparição aos olhos do público desde o final dos anos 1980 e, desde então, vem se esforçando consistente e obstinadamente no sentido de promover a rehelenização e a restauração completa da Religião Étnica Helena. E essa manifestação do Helenismo Étnico tradicional não é neopagã, mas ancestral.  

Mais uma vez, reafirmamos que a Religião do verdadeiro Heleno é uma e é chamada de “Étnica”. Para desgosto de toda a sorte de intenções e interesses já mencionados, nós existimos e estamos lutando. E a nossa luta não vai parar até que seja totalmente restaurada a Religião Étnica Helena, em uma Nação Helena livre, um Estado Soberano, museus que possam receber sem medo os testemunhos escritos da nossa continuidade histórica ininterrupta e escolas que ensinem, primeiro e acima de tudo, a hoje completamente desconhecida epopeia clandestina da nossa resistência. 

Atenas, novembro de 2014

Vlassis G. Rassias

Traduzido para o português por Mikka Capella.
Original disponível em http://rassias.gr/1109.html







[1] A palavra aqui traduzida por etnia, “ethnos”, também significa “nação”. Este é um dos complicadores da língua grega moderna em relação ao português. Enquanto, no Brasil, dispomos de duas palavras com significados distintos para o senso comum (etnia e nação), os gregos têm apenas uma, que aglutina ambos os significados. Ocorre que a palavra “nação”, originalmente um sinônimo semântico latino para o grego “ethnos”, foi ressignificada no contexto da Revolução Francesa, assumindo um sentido diferente. Torna-se necessário, então, avaliar o contexto para identificar o termo que melhor se adéqua na tradução ao sentimento que o autor quis transmitir no texto original. Na tradução apresentada, algumas vezes traduziremos “ethnos” por “etnia”, outras (poucas) vezes por “nação”. 
[2] De acordo com Heródoto, esta foi a orgulhosa resposta que os atenienses deram ao emissário espartano, quando este lhes procurou para saber se estariam dispostos a lutar ao lado de Esparta contra os invasores persas, no século V a.E.C.. 
[3] Os próprios gregos jamais se denominaram “gregos”. Este foi o nome que lhes deram os romanos. Existem, portanto, duas palavras no grego moderno que podem ser traduzidas como “grego” em português, mas possuem um significado semântico completamente diferente. A primeira delas, “Έλλην” (trans.: “Éllin”, heleno) é a designação mais antiga e alude à origem mítica dos helenos, que se acreditam descendentes de Heleno, filho de Deucalião e Pirra, portanto descendentes do próprio titã Prometheu. A segunda, “Ρωμιοί” (trans.: “romioi”), significa, literalmente, “romanos”, e foi adotada no século III E.C., quando praticamente todos os gregos tornaram-se cidadãos do Império Romano e, com a ascensão do cristianismo como religião oficial, a palavra “heleno” tornou-se sinônimo de “pagão”, usada para aqueles que se mantinham fieis à religião politeísta tradicional. O resgate da designação “heleno” está ligado ao próprio resgate da identidade étnica do povo grego. Entretanto, embora “heleno” tenha se tornado popular outra vez (apenas no século passado), o nome “romioi” ainda é bastante usado. Neste texto, o autor usa a palavra “romioi” para se referir àqueles que, embora pertençam ao moderno Estado Grego, permanecem indiferentes à sua verdadeira identidade étnica: a “Helenidade”. Na tradução para o português, usaremos a palavra “heleno” onde o autor usa “Éllin” e a palavra “grego” apenas quando ele se refere aos “romioi”.
[4] Anteriormente, o autor se referiu ao cristianismo como uma espécie de “anti-etnia”, que age fagocitando indivíduos de origens étnicas distintas, substituindo suas identidades étnicas pela identidade única da cristandade. A palavra “etnocracia”, aqui, deve ser entendida nesse sentido, como se a cristandade, afinal, adquirisse a marca de uma etnia própria, abrangente e autoritária.  
[5] A passagem se refere às chamadas “Cruzadas do Norte”, empreendidas, no século XII E.C., por reis e ordens militares católicas dinamarquesas, suecas e alemãs contra os povos pagãos (ou étnicos) que habitavam a Europa Setentrional, próximo às costas sul e leste do mar Báltico.
[6] Aqui o autor se refere ao episódio histórico conhecido como O Massacre de Verden, quando, em outubro de 782 E.C., o rei franco Carlos Magno ordenou a execução de cerca de 4.500 saxões, no contexto das guerras saxãs. O episódio ocorreu em Verden, atualmente a Baixa Saxônia, na Alemanha, após a destruição do Irminsul, um símbolo importante para o paganismo tradicional saxão, e é tido como decisivo para a cristianização dos saxões.  
[7] Nesta passagem o autor se refere à crença comum de que a Septuaginta é a mais antiga tradução do texto hebreu correspondente ao Antigo Testamento da Bíblia para o grego koiné, que teria sido feita entre os séculos III e I a.E.C.. Hoje, muitos historiadores sustentam a opinião de que a Septuaginta é apenas um mito, e de que não houve nenhuma cópia em grego do Antigo Testamento antes de 100 anos após o Novo Testamento estar completo, isto é, bem depois do século I E.C.. O autor se reporta, ainda, ao fato de que os judeus helenizados de Alexandria, o reino de Ptolomeu, já não falavam o grego na época em que a Septuaginta teria sido escrita, mas o copta, que de grego possuía apenas uma versão modificada do alfabeto.
[8] Escreveu o filósofo Gemisto Pletão (1355-1452) ao imperador bizantino Manuel II Paleólogo (1350-1425).
[9] Em grego Στρατιώτες (trans. Stratiótes), significa, literalmente, “soldado”. Foram guerreiros contemporâneos da dominação turco-otomana, muito especializados, que, segundo se acredita, eram herdeiros das tradições militares de Esparta. Ficaram conhecidos como mercenários porque vários reinos europeus empregaram seus serviços mediante pagamento, entre os quais o Sacro Império Romano-Germânico, a Itália, a França, a Espanha e a Inglaterra. Existiram do século XV ao XVIII e contaram, em suas fileiras, com vários nomes helenos ilustres, como Graitzas Paleólogo, que pertencia à mesma família que muitos imperadores bizantinos.     
[10] Aqui o autor não se refere aos antiquíssimos episódios das chamadas “primeira e segunda diásporas gregas”, mas ao episódio completamente ignorado pela historiografia brasileira da diáspora grega para a Europa (e para as montanhas), após a invasão e dominação turco-otomana, que se estendeu por mais de cinco séculos. A península grega é formada por inúmeras formações montanhosas de dificílimo acesso, que garantiram um refúgio seguro para que cidadãos helenos formassem núcleos de resistência étnica (contra-assimilação) aos quais o autor se refere como “comunidades helenas na diáspora”, durante o período de dominação otomana. Entre os séculos XV e XVI, como assinala o autor, muitas dessas comunidades foram lideradas por guerreiros stratioti. São exemplos dessas comunidades os maniotas, do Peloponeso, os esfaquiotas, de Creta, e os suliotas, de Épiro. A liderança espiritual, aqui, não deve ser entendida tanto no sentido religioso, mas no sentido de não deixar esmorecer o espírito étnico que constituía essas comunidades: sua Helenidade.    
[11] No século XVIII, várias iniciativas liberais por parte da casa Habsburgo fizeram do porto adriático de Trieste (então parte da Monarquia Habsburgo) um lugar atrativo para a formação de comunidades de povos das mais diferentes origens étnicas. Em primeiro lugar, sua posição marcadamente contrária ao Império Otomano, imediatamente seguida da abertura comercial, sancionada por Charles VI em 1717, do Tratado de Passorowitz (1718) e, principalmente, do Édito de 1719, promulgado pelo mesmo Charles VI, que fazia de Trieste um porto-franco. Comerciantes abastados chegaram das mais diversas regiões da Grécia, dentre os quais se destacava Nicolo Mainati, de Zakynthos. Juntos, eles criaram uma comunidade grega em torno do patriarcado ortodoxo que, então, também incluía uma minoria iliriana (atualmente, os sérvios). Faz-se claro, portanto, que a designação “grego” identificava a religião, em primeiro lugar, bem como, em certa medida, uma identidade étnica semelhante, não a nacionalidade. 
[12] A Galocracia Jônica (em grego, Γαλλοκρατία των Επτανήσων) é o termo pelo qual os helenos normalmente se referem ao breve período em que as ilhas jônicas estiveram sob o domínio francês, no século XVIII, constituindo os chamados Departamentos Franceses da Grécia (Départements Français de Grèce). O termo “galocracia” refere-se ao antigo nome da França, “Gaule”, cujos habitantes eram conhecidos como “gallus”. Embora tenha durado pouco, a galocracia trouxe novo fôlego político aos gregos, que já amargavam a dominação otomana havia quatro séculos e estavam entusiasmados com os ideais revolucionários vindos da França. Vinte meses mais tarde, no entanto, os franceses foram forçados a render-se sob a pressão de uma inusitada aliança entre os Impérios Russo e Otomano, que, então, em 1800, fundaram o Estado Jônico.
[13] Rigas Feraios (1757-1798) foi um escritor grego, pensador político e revolucionário. É considerado uma das maiores inspirações para a Guerra de Independência Grega, no século XIX, e, por esse motivo, é lembrado como um herói nacional. É autor do Thourios, considerado a versão grega do hino revolucionário francês, La Marseillaise, em que exorta os gregos e outros povos cristãos ortodoxos que viviam na península grega naquele momento (búlgaros, albaneses, etc.) a deixar as cidades ocupadas pelos otomanos e seguir para as montanhas, onde se podia experimentar mais liberdade.