Mostrando postagens com marcador ficção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ficção. Mostrar todas as postagens

sábado, 7 de dezembro de 2019

RESENHA – A Espada e os Espíritos




Shiba Tsukune é uma jovem samurai do clã Fênix, treinada desde cedo para a nobre função de guarda-costas dos shugenja, sacerdotes da família Isawa. Entretanto, sua vida deu uma guinada quando Ofushikai, a espada ancestral do clã, a escolheu para ocupar o lugar de Shiba Ujimitsu, o falecido Campeão da Fênix. Agora, Tsukune precisará se adequar às formalidades e exigências de sua nova posição social, ao mesmo tempo em que tentará demover o jovem e belo shugenja Isawa Tadaka, a quem serviu durante anos como guarda-costas, da estúpida ideia de duelar contra um dos Mestres do Conselho Elemental.   

Para tanto, Shiba Tsukune irá ao Santuário do Penhasco, nas distantes e montanhosas terras da família Kaito, onde Tadaka está conduzindo uma investigação aparentemente sem importância, sob ordens do Conselho. Tudo mudará quando Tsukune e Tadaka descobrirem que a família Kaito guarda muitos segredos e que um mal muito antigo e com sede de vingança espreita aquelas terras... e está para se libertar.

Antes de falarmos da história propriamente dita, é preciso dizer que a novela de Robert Denton III foi publicada pela Galápagos Jogos, responsável pelo lançamento de inúmeros jogos analógicos, sobretudo cards e boardgames, aqui no Brasil. Um livro, portanto, é uma novidade para a editora, mas uma novidade que se torna menos surpreendente quando ficamos sabendo que a história de A Espada e os Espíritos pertence ao universo de Legend of the Five Rings – um conhecido cardgame, atualmente publicado no Brasil pela mesma Galápagos Jogos, que também deu origem a um dos mais sofisticados RPGs de mesa de que se tem notícia.

De fato, Legend of the Five Rings, ou simplesmente L5R, como é mais conhecido pelos fãs, possui um lore complexo, robusto e dono de uma riqueza dramática ímpar, que não deixa nada a dever a nenhum cenário de fantasia mainstream... Na verdade, deixa a maioria deles comendo poeira.

O jogo possui uma timeline que é atualizada por torneios de cardgame chamados kotei e por contos publicados periodicamente, que acompanham os decks de cards e são, posteriormente, disponibilizados na internet. Assim, a literatura não é, de modo algum, estranha ao universo do jogo. O autor, Robert Denton III, é já um veterano, que escreveu diversos contos para o cenário. A novela A Espada e os Espíritos é o seu primeiro texto mais longo.

A edição da Galápagos Jogos é muito bonita. Ela vem com capa dura, em que figura uma belíssima ilustração de Shiba Tsukune em estilo oriental, e 152 páginas, das quais 16 são um compêndio que traz informações extras e amplia o cenário do RPG, e cerca de 129 páginas de uma trama bastante ágil e envolvente. Além disso, também acompanha o livro um pacotinho com seis cards – dois novos cards que enriquecem o deck da Fênix, sendo três cópias de cada um.

Robert Denton III, por sua vez, é um contista habilidoso, com muita experiência no cenário e um estilo narrativo apaixonante, que casa perfeitamente bem com a atmosfera dramática de L5R. Sua prosa é poética e delicada, passeando pelos cenários bucólicos das montanhas da Fênix com a contemplação de um mestre zen. Seus personagens são desenvolvidos à maneira rokugani – própria de L5R: em dilemas pessoais que têm camadas, de maneira que quem lê fica com a sensação, bastante verossímil, de que nunca conhecerá aquela pessoa, ali descrita, completamente.

A trama de A Espada e os Espíritos tem o foco principal em Tsukune, a nova campeã da Fênix, mas nenhum, absolutamente nenhum dos personagens que perpassam a narrativa dá a impressão de ser supérfluo. Cada um deles tem tantas dimensões que, na verdade, desde o início temos a impressão de que essa mesma história poderia ser contada da perspectiva de qualquer um deles. E isso tem tudo a ver com L5R!

L5R é sobre o drama samurai. Drama samurai, por sua vez, é sobre renúncia, sobre colocar o dever antes de si mesmo e até da própria vida. Neste sentido, A Espada e os Espíritos é sobre o drama samurai de Tsukune, que precisa abrir mão de seus anseios mais profundos para assumir uma posição dentro do clã, com a qual jamais sonhara nem se sentia merecedora. Assim, enquanto a jovem se debate com os desígnios de um destino que ela não sabe se deve amaldiçoar ou bendizer – e com seus sentimentos fortes por Isawa Tadaka – uma investigação tem lugar; uma investigação em que cada descoberta suscita novas perguntas, sugerindo um mistério de proporções cada vez maiores.

O ritmo segue num crescente bem trabalhado de tensão, em que vai ficando cada vez mais difícil largar o livro; e segue assim até o último ato, quando, no conflito final, perde o fôlego e a extensão desnecessária da resolução acaba provocando uma quebra de ritmo que faz, pela primeira vez, a leitura se tornar cansativa. Talvez isso se dê pela falta de experiência do autor com textos mais longos, uma vez que seu terreno parecem ser os contos, mas também não chega a estragar a experiência, que é, de fato, muito boa no contexto geral. Inevitável, todavia, é que o final acabe perdendo alguma coisa do brilho. Nós dizemos “até que enfim”, quando devíamos estar dizendo “não acredito que isso aconteceu”.

Outra crítica, certamente de importância menor para o valor literário da obra, vai para a compostura de certos personagens, que, pelos rígidos costumes rokuganis (inspirados nas igualmente rígidas tradições do Japão feudal), deviam mostrar mais respeito por figuras políticas de grau hierárquico superior. Ao longo de todo o livro, tive a impressão de que houve o que chamamos no RPG “quebras de cortesia” ou “falhas de etiqueta” que implicariam consequências graves, no entanto foram ignoradas e, no contexto da coisa toda, acabaram parecendo despropositadas.

A despeito disso, A Espada e os Espíritos é um livro bem escrito, divertido, repleto de personagens cativantes e muita riqueza cultural, que os amantes de fantasia e de cultura oriental não vão querer deixar de ler. Espero que a Galápagos Jogos traga novelas de todos os clãs de L5R para o Brasil. Eles são mais uma forma – uma forma excelente, deve-se dizer – de fazer com que mais pessoas tenham acesso ao universo apaixonante de Legend of the Five Rings.    

segunda-feira, 11 de julho de 2016

REENCONTRO


A guerra finalmente acabara. Toshi Ranbo estava novamente sob o domínio do Leão e uma promissora aliança com os unicórnios desenhava-se no horizonte. A presença da cavalaria Otaku no campo de batalha era a prova disso. Os planos de Sakurajima, apesar de todos os dissabores, tinham sido bem sucedidos, afinal.
Agora ele estava exausto. Não apenas em corpo, mas também em alma e, principalmente, em espírito. Ali, diante daquela pira que incinerava os restos do yoriki de Shuto, sumariamente executado por sua adaga de cristal, ele se questionava silenciosamente sobre os motivos de tudo aquilo. Os acontecimentos em Kyuden Tonbo tinham mesmo mexido com alguma coisa dentro dele.
Sempre considerou que seu clã era governado por estúpidos de alma vazia, severamente inclinados a confundir sangrenta ambição com glória e deliberada impiedade com honra, mas jamais preocupara-se realmente com seus destinos políticos. Talvez fosse o potencial que viu em Toturi, naquela ocasião em Oiko, quando tomou a cidade da Garça usando apenas diplomacia, de tornar-se um líder verdadeiramente sábio e digno, aliado a péssima fama do Leão perante os outros clãs, que pode constatar nas terras de Tonbo Toryu. Ele sabia que o Leão se considerava a mão direita do Imperador, mas estava errado. Garça e Escorpião equilibravam a balança de poder, enquanto os leões, eternamente obcecados com a guerra, tornaram-se apenas um incômodo eventual, politicamente irrelevante.
Mas também podia ser que estivesse procurando algo em que se concentrar para esquecer os horrores que conheceu naquela caverna nas montanhas, em uma noite sem estrelas e sem luar... Um horror que nos momentos finais da guerra havia voltado para lhe assombrar, na figura daquele corpo que queimava a sua frente.
— Desobediência é uma falta grave – sussurrou-lhe de repente Toturi, que não havia percebido se aproximar. — Mas o que pode compensar a desobediência?
— Eu não sei, meu senhor – ele disse.
— Pensei que você diria lealdade... Mas eu estava pensando em algo que preciso ter ao meu lado – inteligência.
Nesse ponto, Sakurajima havia servido Toturi como o velho Ikoma servira a Akodo-kami. Mas ao invés de ganhar o direito de fundar uma família com seu nome, ganhou a vergonha de perder um posto conferido em um momento de crise às vésperas da guerra, diante de um exército que não foi informado de motivo nenhum.
Bem, Toturi certamente não era Akodo-caolho. E quando os homens não sabem os motivos, eles criam motivos para si. Talvez agora estivessem pensando em sua antiga fama de depravado, frequentador de casas de chá. Fosse como fosse, os camponeses que Shuto pretendia usar como escudo humano estavam agora salvos e a guerra terminou com poucas baixas nas fileiras do Leão. Isso era suficiente para valer o preço que custou.
Sakurajima dirigiu-se aos seus amigos, aqueles nobres samurai sem os quais nada teria sido possível. A admirável dama da batalha, Shinjo Azumi, habilidosa na guerra das espadas e também na das palavras. Kitsuke Amanuma, com sua perspicácia infalível. O enigmático Asako Kamui, e sua intrigante conjunção de frieza e sensibilidade. Principalmente, Matsu Miyako, de alma pura e lealdade férrea, e o nobre Mirumoto Heihachi, sempre tão ponderado embora um guerreiro verdadeiramente temível. “Eu sou profundamente grato pela oportunidade de lutar ao lado de vocês. Saibam que a qualquer hora, em qualquer dia, sob qualquer circunstância, se precisarem de mim, eu vou estar lá.”
Em breve, todos se veriam novamente nas terras de Miyako-san, onde um mal relativo à Sombra espreitava e eles se comprometeram a ajudar. Naquele momento, tudo de que Sakurajima precisava era do castelo de sua família, em Renga Murai. Ao amanhecer do dia seguinte, reuniu os homens que seu pai lhe enviara e seguiu caminho de volta para casa.
***
 Devia ser bem tarde quando ele acordou ouvindo um som incômodo, um estranho pulsar. Sem pensar, pegou a adaga de cristal, que repousava em baixo do seu travesseiro, e apontou para o ar. Num dos cantos do aposento, entre a parede de pedra e um velho baú de madeira, uma luz intermitente piscava dentro de sua sacola de viagem. A Lágrima do Oni.
Ele se levantou, pegou um monte de roupas sujas que havia trazido do cerco em Toshi Ranbo e jogou em cima da sacola. “Em algum momento... Mas não agora.”
Voltou para a cama. Guardou a adaga outra vez debaixo do travesseiro e deitou. Viu o maço de pergaminhos enrolados ao seu lado. Levaria algum tempo para terminar de registrar toda aquela história. Dormiu pensando no momento em que entregou seu diário nas mãos de Miyako-san, pedindo a ela que o queimasse caso não o visse outra vez. Queimasse sem ler. Nunca antes estivera tão perto de revelar todos os seus segredos a alguém. E as Fortunas sabem que, no caso dele, “todos os segredos” significava realmente muita coisa.
***
A luz de Amaterasu resplandecia nos céus, quando Makoto-sama postou-se à sua porta. “Sa-kun, está vestido?”
— Faria diferença? – ele disse, enquanto escondia o maço de pergaminhos atrás da cama.
Ela entrou com um sorriso terno nos lábios e uma tijela de arroz nas mãos.
— É bom estarmos em casa outra vez. Trouxe seu asagohan.
Makoto deixou a tigela na beirada da cama e se sentou. Sakurajima tomou a tigela nas mãos e agradeceu. “Arigatou”. Mas ficou ali, sobre a cama, com a tigela nas mãos, sem comer.
— Você está bem, Sa-kun?
— Não de verdade.
— Não importa o que aconteceu entre você e Toturi. Eu estou orgulhosa. Não achei que se importasse com os assuntos políticos do clã, você nunca pareceu propenso a se envolver com nada que seu pai não lhe obrigasse a fazer. E, no entanto, voltou de Kyuden Tonbo preocupado com a guerra, apoiando Toturi abertamente, mesmo a contragosto de seu pai. Não sei o que mudou, mas sei que você teve grande responsabilidade nessa vitória. Como sua mãe, eu me sinto honrada.
— Eu nunca me importei com Toshi Ranbo. Isto nunca foi sobre aquela cidade.
— Então me conte, Sa-kun, quais eram suas verdadeiras intenções?
— Não é segredo para você o motivo de nunca ter me importado com a política de nosso clã. Temos sido liderados por homens que só se realizam na guerra, como se este fosse o único propósito de nossas existências. Como o Caranguejo segura os monstros das Terras Sombrias na Muralha, nós mesmos nos tornamos o nosso pior inimigo. Se é verdade que somos o braço direito do Imperador, este braço enlouqueceu e passou a atacar indiscriminadamente o resto do corpo. Nós nos tornamos politicamente uma piada. A Garça e o Escorpião comandam o verdadeiro jogo de poder, isso ficou claro para mim em Kyuden Tonbo. Toshi Ranbo, então, era apenas um símbolo da nossa volta ao jogo. De que podemos fazer melhor. E depositei em Toturi minhas esperanças para que isso possa se tornar realidade.
— Mesmo que ele próprio duvide tanto de si mesmo?
— Eu o entendo. Ele passou a vida inteira ouvindo que não era bom o bastante. Eu sei o que isso faz com a alma de um homem. Mas vi o que ele fez em Oiko, antes do último inverno. Não há melhores mãos para guardar o nosso destino.
— Vejo tanta admiração em suas palavras... O que houve entre vocês?
Sakurajima levantou e foi até a janela, de onde podia ver os pessegueiros no jardim lá embaixo.
— Eu toquei meu próprio limite quando Shuto ameaçou as vidas daqueles heimins. Esta é minha fraqueza. Acho estúpida a noção de dever aplicada a quem a vida mal deu a oportunidade de tentar compreendê-la. Não suportaria me sentir responsável pela morte de tantos inocentes, sacrificados num jogo sujo de interesses entre clãs.
— Então aquilo com os camponeses... Foi iniciativa sua?
— Hai... Contra as ordens de Toturi-sama.
— Meu filho, muitos homens têm motivos para se envergonhar de suas fraquezas. Poucos têm motivos para se orgulhar delas.
Satisfeita por finalmente haver compreendido o mistério, Makoto levantou-se e já se preparava para deixar o aposento, quando voltou-se outra vez para o filho, ainda apoiado na janela.
— Ah! Eu já ia me esquecendo... Imazo-sama gostaria de falar com você. Ele me pediu para avisá-lo assim que estivesse de pé.
Sakurajima sentiu um calafrio percorrer sua espinha ao ouvir as últimas palavras de sua mãe. Durante toda aquela temporada, havia evitado seu pai. Viu-o pela última vez no conselho de guerra, em Oiko, quando Toturi nomeara-o karo, mas não trocaram nenhuma palavra então. A recepção de Makoto fora, como sempre, acolhedora. O que poderia esperar de Akodo Imazu?
— Sakurajima-san está aqui para vê-lo, meu senhor – anunciou o karo de seu pai.   
— Faça-o entrar – disse Imazu lá de dentro. A voz rouca e grave, austera como sempre.
— Akodo-sama pediu para me ver? – disse Sakurajima, prostando-se de joelhos diante do pai, com tanta reverência – senão mais – quanto prostava-se diante de Toturi.
— Sim. As histórias de suas façanhas já chegaram até aqui. Não tomei parte na guerra, mas soube que você foi o primeiro a entrar na fortaleza de Shuto. Ainda assim, trouxe de volta todos os meus homens vivos... Como conseguiu isso?
— Eu ainda não lhe agradeci por ter enviado uma legião sob o meu comando, Akodo-sama. Domo arigatou gozaimasu.
— Agradecer? Acha que eu deixaria aquele fracote humilhar nossa família, colocando meu filho junto a uma tropa de soldados rasos? Depois de tudo o que você fez por ele?
Sakurajima ergueu um pouco a cabeça, surpreso com a atitude de Imazu. Seu pai estava mesmo lhe defendendo? Não. É claro que não. Estava preocupado com a honra da família, ele concluiu segundos depois. Mas quando ergueu a cabeça para seu pai, percebeu que ao lado dele estava sentado um rapaz. Seria Daisuke? Como havia crescido! Há muito tempo não via seu irmão caçula.
— Espero que isso tenha lhe ensinado algo sobre a natureza de Toturi – Imazu completou.
— Akodo Toturi-sama deve ter tido seus motivos, Akodo-sama.
— Não ouse defendê-lo. Essa atitude me ofende. Você não o conhece como eu. Sei que me acha estúpido, musuko-san. Toturi deve ser um erudito para você. Mas seria estúpido da sua parte, depois de tudo o que viveu, ignorar que a arte da guerra tem sua própria sabedoria. E se Toturi é hoje um erudito, é porque sempre foi inapto para a espada. Não é como se tivesse sido escolhido pelas Fortunas para o caminho das letras, isso foi tudo o que lhe restou. Eu sei. Estive ao lado de Matsu Daio desde o início. Eu os vi crescer, ele e Arasou. É lamentável que Arasou tenha permitido que seus sentimentos por Tsuko obscurecessem seu raciocínio. Eu acreditava que daria um bom daimyo, mas um samurai não deve permitir, jamais, que coisa alguma se coloque entre ele e o cumprimento do seu dever.
— Acha que foi isso o que aconteceu? Arasou distraiu-se por paixão?
— Sabe quantas vezes eu lutei ao lado dele? Arasou era um homem inteligente, como todo Akodo. Acha que eu me importo com o sobrenome que usa quem governa este clã? Ele poderia se casar com Tsuko e tornar-se Matsu, se isso servisse para manter a união de nosso clã. Aquelas mulheres são cegas de orgulho. Ótimas guerreiras, mas não enxergam nada além da própria glória. Arasou permaneceria sendo Akodo em sua alma. Ninguém pode fugir de sua formação. Mas ele se deixou cegar pela paixão, caso contrário não teria atacado a cidade de maneira tão impulsiva e irresponsável.
Imazo obviamente não conhecia todos os detalhes daquela situação. Arasou havia sido traído. Bayushi Sozui infiltrara-se no acampamento Leão, levando todas as informações do ataque para Shuto. Mas, Sakurajima não podia negar, seu pai tinha certa razão.
— Fico surpreso com sua opinião a respeito das Matsu – disse Sakurajima. — Achei que julgaria Tsuko mais adequada que Toturi para o comando do clã.
— Se fosse menos arrogante e desse ouvidos ao seu pai, saberia que não. Eu jamais apoiaria Tsuko ou sua mãe. Toturi, infelizmente, é nossa única opção. Pelo menos por enquanto. Mas me preocupa que rumos dará ao clã, agora que você não está com ele...
A última declaração de Imazo quase fez Sakurajima perder o equilíbrio.
— Acha que sou tão capaz assim?
— Você me surpreendeu, musuko-san. Estou orgulhoso do que fez em Toshi Ranbo. Vejo que finalmente está seguindo pelos caminhos que eu sempre quis que você seguisse. Toturi pode ter lhe destituído da posição de karo, mas os homens comentam entre si que todos sabem quem foi o verdadeiro responsável pela nossa vitória. Diga, trazer os unicórnios foi mesmo ideia sua?
— Fo-Foi – ele gaguejou. — Desenvolvi um grande apreço pelos unicórnios durante o Torneio de Topázio. Além disso, o Imperador havia incumbido nosso clã de ensinar ao Unicórnio as tradições de Rokugan... E, bem, a guerra é uma de nossas tradições mais importantes.
 — Daisuke-san, veja bem seu irmão. Isso é ser Akodo.
— Sakurajima-senpai – disse Daisuke, fazendo uma profunda reverência ao irmão.
— Está dispensado, musuko-san.     
Sakurajima fez uma profunda reverência ao pai e já se preparava para sair, quando se deteve a meio caminho entre Imazu e o lado de fora do aposento.
— Eu poderia lhe fazer um pedido, Akodo-sama?
— Sim.
— Poderia me treinar nas técnicas da escola Akodo?
— Achei que voltaria para Shiro sano Ken Hayai o mais rápido possível. Você nunca passa muito tempo nesta casa.
— Acho que já tive o suficiente das lições de Kage-sensei... Agora eu gostaria de aprender com você.
Imazu encarava-o do tatame, a expressão, como sempre, indecifrável.
— Esteja aqui amanhã, na hora de Amaterasu.
No aposento ao lado, separado daquele por finíssima parede de papel de arroz, com um chawan de chá nas mãos, Makoto sorriu.



*******

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A TRISTE HISTÓRIA DE ENRICO DEL FRARI V

CAPÍTULO QUINTO




Francesca e Enrico entreolharam-se perplexos. Aquilo só podia ser piada. Então era aquele o preço de que Marco havia falado, que eles se mudassem para a sua casa? No final, não parecia bem um preço, mas outro enorme favor.
Francesca, embora Marco insistisse na necessidade de continuar aquele estranho tratamento, estava ótima. É claro que nem ela nem Enrico entendiam como ou por qual milagre aquilo era possível, mas isso não lhes preocupava. Francesca havia recebido uma oportunidade única – uma vez às portas da morte, recobrara a saúde e, nas palavras de Marco, viveria para cuidar de Enrico. De que lhe serviria conhecer o mecanismo do prodígio? Ela simplesmente queria viver e viveria. Essa certeza lhe bastava.
Quanto à exigência de viver com Marco em sua casa, bem, bastava um olhar para entender que aquilo parecia mais com caridade.
Ele definia a si mesmo como um homem solitário, que, no entanto, detestava a solidão. Estava na cidade havia poucos dias e morava numa casa enorme na via Porta Pile, no extremo norte da cidade velha. Entre os hábitos excêntricos que cultivava, estava o de dormir durante o dia, quando a propriedade parecia abandonada e precisava de alguém para tomar conta.
Resumidamente, era o que ele queria de Francesca e Enrico – que eles tomassem conta de sua casa enquanto estivesse dormindo. Somente se encontrariam à noite. No resto do dia, teriam toda a casa para que vivessem como bem quisessem.
Isso não podia ser tão ruim.
A casa em que moravam, na via Cremona, parecia um tugúrio caindo de velho. Já a residência de Marco, gentilmente oferecida em troca de um pequeno favor, tinha três andares, um banheiro em cada pavimento e cinco quartos muito confortáveis – e desocupados, uma vez que o anfitrião, por outro de seus estranhos costumes, preferia acomodar-se no porão.
A sala também era requintada. Diante da lareira, descansavam elegantes estofados recobertos de veludo bordado. Tapetes de peles legítimos escondiam quase todo o chão e as paredes, delicadamente ornamentadas por lambris de madeira encerada, ostentavam telas, na parte superior, assinadas por autores de diferentes estilos artísticos e das mais variadas regiões da Itália.
Num dos cantos, perto da mesa de jantar, ele tinha um piano, um piano de cauda. Francesca e Enrico nunca tinham visto um piano tão de perto.
Nas poucas noites em que não saía, Marco se sentava ao piano e tocava. Alguma peça de Vivaldi era sempre sua escolha predileta, mas também havia outras; Stravinsky, alguma polca de Mozart ou as melancólicas composições de Schubert nunca deixavam de encantar os ouvidos atenciosos e fascinados. Eram ocasiões em que a música invadia a casa. Mãe e filho se regozijavam e a noite terminava em festa.
A palavra de ordem, entretanto, parecia ser conforto – conforto e privacidade. Todas as enormes janelas, sempre fechadas, tinham venezianas e pesadas cortinas de brocado inglês. A cozinha, demasiado ampla, estava equipada com quase tudo que uma dona de casa poderia desejar – mas quando eles chegaram, tiveram a impressão de que nunca havia sido usada.
Isso era outra coisa estranha, aliás. Francesca e Enrico nunca viram Marco fazer uma refeição sequer. Ele sempre despertava depois do pôr do sol e, na maior parte das vezes, saía logo em seguida. Quando voltava, ninguém estava acordado para ver.
Além disso, era um homem rico, não havia dúvida, mas sua fortuna tinha origem desconhecida. Não se sabia com o que trabalhava, por exemplo, tampouco de parentes ou mesmo uma família. Talvez tivesse recebido alguma herança, mas isso era um mistério e ninguém ali estava interessado o bastante para invadir a privacidade dele e perguntar.
O que sabiam era que em seus aposentos, no porão, a entrada era expressamente proibida. Ele não se contentava com a mera recomendação. A porta era trancada a cadeado.
Certa vez, pedira uma coisa curiosa a Francesca. Se um dia, por alguma razão, alguém viesse a lhe parar na rua e perguntasse sobre a quem pertencia aquela casa, ela deveria dizer que era sua; e se, ainda assim, insistissem em saber com quem morava ali, diria ser apenas com seu filho.
Uma atitude estranha. Uma das muitas atitudes estranhas. Será que ele se escondia de alguém?
Marco era um homem de muitos segredos, isso estava claro. Insondável, quase não falava da própria história. Mas nem por isso sua companhia era menos agradável.
Ele era interessante, dono de humor ameno e irreverente. Igualmente, o ar misterioso nunca lhe impedira de ser divertido em demasia. Também jamais deixara de tratá-los com doçura. Era alguém que dispensava elogios facilmente e, com notório esmero, cuidava de fazer das poucas horas que passavam juntos momentos aprazíveis.
Por tudo quanto viviam, era inevitável que Enrico acabasse vendo em Marco um tipo de pai. Essa relação não era de nenhuma forma intencional. Marco jamais tivera a intenção de estimular um sentimento dessa natureza. Era uma consequência espontânea e natural.
Por causa do serviço militar, em seus onze anos, Enrico pouco havia visto o verdadeiro pai. É claro que ele não ignorava que o sustento da família vinha do trabalho no exército, mas era indiscutível que a distância criara um enorme vácuo entre eles. Então, justo em seu momento mais difícil, eis que surge Marco, modificando completamente o rumo da história. A melhor palavra para ele era salvador. Mais ainda que um pai, Enrico o via como herói.
Tal como fora combinado, Marco alimentava Francesca ao menos duas vezes por semana com seu sangue medicinal. A mulher já não apresentava qualquer vestígio da doença, mas ele insistia que os sintomas voltariam se parassem.
Francesca, de sua parte, não parecia incomodada pelo fato de que precisava beber sangue tantas vezes. Pelo contrário, ela parecia esperar por aquele bálsamo assombroso com admirável ansiedade. Parecia mesmo... Gostar.
Marco, ao oferecer-lhe o pulso machucado, invariavelmente precisava afastá-la no final, pois, mesmo já havendo tomado mais que o bastante, não parecia querer deixá-lo. Agarrava-se a ele com tamanha força que o tragaria por inteiro se pudesse.
Depois do ato consumado, exatamente como na primeira vez, Marco estava extenuado e Francesca entorpecida, abandonada de si, numa espécie de êxtase quase religioso.
Era um ritual estranho e um tanto incompreensível, mas se parecia com amor. Provavelmente a coisa parecida com amor que tinham conseguido ter naqueles últimos e terríveis tempos.
De um modo inusitado, construiu-se uma família. A relação que eles tinham envolvia dependência, mas também estava cheia de cumplicidade e respeito. Marco os protegia. Eles, por sua vez, evitavam as indiscrições.
Não é tão difícil entender. Depois de anos no deserto, um oásis aparece. Simples desse jeito. E quando uma coisa assim acontece, não importam os porquês. Verdades incompletas valem mais que verdades indesejáveis.
Então, um dia, como de costume, Francesca despertou por volta das sete da manhã. Era um domingo, dia em que, desde que havia se mudado para a casa de Marco, frequentava a missa na parrocchia Santi Faustino e Giovita.
A cerimônia começava às oito horas e Francesca jejuava até às nove, quando a missa terminava. Por essa razão, excepcionalmente aos domingos, a primeira refeição nunca acontecia antes das dez.
Depois de ter se levantado, ela cuidou do próprio asseio e trocou a camisola por um vestido longo preto. De uma das gavetas do criado-mudo, tirou um terço e um véu da mesma cor do vestido. Arrumara os cabelos em um coque cuidadosamente penteado; depois, na direção da porta principal, cobriu os ombros com um xale pesado de lã que descansava sobre um cabideiro.
Já se preparava para sair. Foi quando uma coisa perturbou sua atenção. Do outro lado da rua, em meios às árvores do canteiro que separava a via Porta Pile da Silvio Pellico, avistara um homem estranho que parecia espreitar a casa.
A primeira vista, achou que fosse um padre. Ele se vestia inteiramente de preto e usava um casaco comprido, que, se visto de relance, parecia uma batina. Também usava um chapéu, mas um olhar um pouco mais atento não perceberia o típico colarinho branco dos sacerdotes, nem o terço preso à cintura, apenas uma correntinha com um crucifixo de prata.
No entanto, o que mais chamava a atenção, sem dúvida nenhuma, eram aqueles olhos – uns olhos pretos, fulminantes e cruéis. A expressão no rosto dele tinha algo de perverso, sombrio e a barba por fazer acrescentava uma virilidade mórbida ao seu aspecto sujo e opressivo.
Francesca arrepiou-se. Num repente, sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Alguma coisa naquele homem parecia auspiciosamente terrível.
Ela cruzou os braços, como se sentisse frio. Então baixou o rosto e apertou o passo rumo ao portão. Naquele instante, desejava apenas desaparecer o mais rápido possível de seu campo de visão.
O homem, por sua vez, permaneceu impávido. Não esboçou qualquer sinal de reação. Continuou ali parado, apenas observando, enquanto a mulher deixava a casa exasperada e seguia quase correndo em direção à igreja.
No espaço de um segundo, mil coisas se passaram na cabeça de Francesca. Quem seria aquele homem que a deixara tão perplexa? O que fazia espiando a casa àquela hora da manhã? Uma certeza absoluta de que nunca o vira antes sobreveio, mas era evidente que estava ali por um motivo – a pergunta era qual.
Inevitavelmente se lembrou das recomendações de Marco. No início, não levara muito a sério, mas agora não sabia o que pensar. Marco estava mesmo se escondendo? Não podia acreditar que arriscaria sua vida e a de Enrico, mas que tipo de segredo tão terrível ele guardava?
Ela foi para a igreja e durante a homília não ouviu uma palavra. Sua mente estava inquieta, pressentia o perigo, não sabia o que fazer. Ao anoitecer, quando Marco despertasse, poderia lhe contar. Até lá, só restava desejar que aquilo fosse um susto, nada pra se preocupar, uma coisa passageira; e na volta para casa, aquele homem – aquela sombra – já teria ido embora. Ficaria tudo bem.
Mas não foi o que aconteceu...
Francesca deparou-se outra vez com o homem, só que não estava mais do outro lado, agora estava em seu portão.
― Esta casa é sua? – ele perguntou. A voz sussurrada, quase gutural.
Outro calafrio, ainda mais forte que o primeiro. O coração pulsava acelerado. Ela sentiu as pernas bambearem.
― Sim – respondeu. – Por quê?
― Quem mais mora aqui? – o homem insistiu, ignorando completamente a pergunta de Francesca.
― Apenas meu filho e eu... Posso saber quem é o senhor?
O homem deu uma meia volta, coçando o queixo devagar.
― Estranho... – disse, voltando-se outra vez para ela – A senhora parece jovem. O seu filho tem quantos anos?
― O senhor me dê licença, per favore!
Mas o homem fez exatamente o contrário, colocou-se entre ela e o portão.
― Porque me lembro – ele disse – de ter visto um homem entrar aí... Um pouco antes do amanhecer.
― Signore, eu devo começar a pedir socorro?
― Io non credo, signora – retorquiu abrindo um pouco a aba do casaco, deixando que ela visse o cabo de uma faca de caça que trazia junto à cintura. – Adesso, por que não abre a porta e me convida para entrar?



*******

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A TRISTE HISTÓRIA DE ENRICO DEL FRARI IV

CAPÍTULO IV




Aconteceu como Marco havia dito.
Apenas meia hora depois daquele estranho ritual, Francesca levantou da cama e parecia ótima. Seu rosto recuperara o rubor e as olheiras simplesmente tinham desaparecido.
Enrico não entendia bem o que acabara de presenciar. No pulso de Marco não havia nem sinal de ferimento, mas a beirada da manga de sua camisa ainda estava suja de sangue. Como tinha feito aquelas coisas? Só podia ser um mágico, como havia dito. Não tinha outra explicação.
Além disso, ele cumpriu o que prometeu. Sua mãe, inexplicavelmente, estava ali, de pé. Havia recuperado a saúde. Quem a conhecesse agora não poderia sequer imaginar que há menos de uma hora estava tão doente, quase morta sobre a cama.
Ela, naturalmente, quis saber quem era aquele homem e o que fazia em sua casa. Não havia guardado nenhuma lembrança da experiência que acabara de viver. Foi quando Marco entendeu que o momento havia chegado – era hora de cobrar seu preço.
Com a elegância que lhe era típica, apresentou-se, depois iniciou uma longa e detalhada narrativa, desde o momento em que encontrou Enrico, às portas da Chiesa di Santa Maria, até aquela hora. Francesca ficou consternada com a exposição de sua miséria, mas também estava grata. Aquele homem, afinal, lhe inspirava um fascínio e uma inexplicável simpatia.
De sua parte, Marco elogiava a coragem e a inteligência de Enrico, seduzindo ainda mais a mãe do menino, que, àquela altura, estivera inconsciente a maior parte do tempo e pouco sabia dos revezes que o filho enfrentara. Com muito custo, o garoto havia conseguido garantir a sobrevivência deles dois e fez isso sozinho. Como não admirar tamanha tenacidade em alguém assim tão jovem?
― Mas como, signore Marco, eu posso estar curada se os médicos dizem que não há remédio? – Francesca quis saber.
― Com meu sangue – disse Marco, à queima roupa. – Mas não se engane, você ainda não está completamente sã. Vai precisar beber mais vezes, ou a doença voltará; e o único sangue que de fato lhe servirá para este fim é o meu.
A força de seu sangue, além de restabelecer a saúde de Francesca, parecia exercer algum efeito sobre sua vontade. A mulher olhava para ele com fascínio semelhante ao de um devoto diante de um santo no altar. Àquela altura, sua voz lhe parecia um eco de seus próprios pensamentos. Ela não ignorava esta reação incomum, mas também não era capaz de evitar.
― Diga-me, signora – ele completou –, vai ou não querer viver para cuidar de seu filho?
Era uma pergunta definitiva e tinha mesmo este tom.
A mulher, sem ponderar, fez que sim com a cabeça.
― Sábia escolha... – Marco sentenciou. – Vocês devem se mudar ainda hoje. Será um prazer imenso tê-los em minha humilde morada.



*******


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A TRISTE HISTÓRIA DE HENRICO DEL FRARI III

CAPÍTULO TERCEIRO




O tratamento da tuberculose consistia em aumentar a imunidade do enfermo – o que se conseguia com repouso, clima frio, seco e uma alimentação apropriada. Apenas isso. Não havia um tratamento combativo. Esperava-se que o próprio organismo se curasse a si mesmo.
Algumas vezes, efetivamente, era o que ocorria. Algumas vezes. Quase todos acabavam morrendo depois de certo tempo, que se traduzia em anos ou apenas poucos meses. Tudo dependia do doente.
Agora vinha Marco, que dizia ser capaz de uma proeza impensável – curar um tuberculoso. E não era médico ou coisa parecida. Era mágico. Um mágico leitor de mentes.
Como ele faria, Enrico não sabia dizer, mas também não ousaria questionar de novo. Não queria irritá-lo. Afinal, se Marco tinha mesmo o poder que afirmava ter, talvez o pesadelo em que vivia finalmente terminasse. Essa possibilidade o enchia de esperança.
Foi assim que o levara pelas ruas e vielas da cidade, num atalho rumo ao sul do Centro Histórico. Da Piazza Vittoria até a casa onde morava, na via Cremona, era uma distância razoável, mas tamanha era a ansiedade de Enrico que fizeram o trajeto em pouco mais de dez minutos.
― É aqui, signore Marco – disse o menino.
Era uma casa de paredes amarelas, descascadas pelo tempo. Percebia-se que outrora havia sido um lar, mas agora espelhava um mausoléu.
No jardim do frontispício, eram nítidas as marcas do abandono. Já quase não se podia distinguir os inços das folhagens cultivadas. Uma cerca rústica de arame separava o passeio do espaço da propriedade. Nela, um portãozinho de madeira, velho e empenado, dava acesso à área interna, abarrotada de insetos e sujeira.
Enrico foi na frente, abrindo caminho para Marco. Este, de sua vez, seguia o menino, estupefato com o avançado grau de decadência do lugar.
O mobiliário e o chão estavam cheios de poeira. Por toda parte, objetos espalhados e quebrados. Nos cantos das paredes, muitas teias de aranha, além de percevejos e baratas. Não soubesse que alguém vivia ali, pensaria estar abandonado.
Nada, porém, cheirava a azedo ou estragado. Embora houvesse vários cheiros que se misturavam – mofo e umidade, entre outros –, o de comida não estava entre eles. Marco não esteve na cozinha, mas, considerando o estado em que estava todo o resto, a conclusão era uma só: não se tinha mesmo o que comer ali.
― Venha, signore, é por aqui – dizia Enrico, afoito, ao passo que subia apressado a escada de madeira que levava ao outro andar. Aquelas tábuas rangiam tanto que, por um momento, Marco achou que fossem desabar.
“Implicância”, ele pensou. Mas não tardaria a descobrir que estava certo. Mal pisara na madeira da escada e já sabia a razão do tal barulho – estava infestada de cupins; e, pelo jeito, há bastante tempo.
Marco se agarrara ao corrimão, subindo com cuidado. De uma hora para outra, tudo aquilo podia vir abaixo.
Lá em cima, Enrico esperava ansioso às portas de um aposento entreaberto. De dentro desse quarto, uma luminosidade tênue escapava, revelando a silhueta moribunda de uma mulher. Um corpo lívido, descarnado, com olheiras fundas e arroxeadas, estirado sobre o leito.
Marco olhou para Enrico com clemência. Depois abriu o que faltava da porta e, muito devagar, caminhou até a cama.
Ela estava inconsciente.
Ele tirou a luva de uma das mãos e tocou-lhe a testa úmida. Ardia em febre. Tudo que Enrico havia dito era verdade. A mulher não duraria muito tempo mais.
“Terrível sina! Pobre criança!”, Marco pensou.
A menos que fizesse o que tinha ido ali fazer, uma tragédia se avizinhava. Francesca estava mesmo condenada e Enrico, certamente, era o próximo. Afinal, depois de tanto tempo, a possibilidade dele não estar infectado era quase nula.
Marco, de repente, viu em si mesmo a única esperança. Voltou-se para a porta do aposento e, delicadamente, pôs as mãos nos ombros do menino.
― É irônico que o remédio para um mal algumas vezes venha de outro, não acha?
Enrico respondeu com um olhar confuso. Não havia entendido nada.
― Se eu fizer isto – Marco prosseguiu –, você também terá de fazer uma coisa por mim.
― O quê? – Enrico perguntou.
― No tempo certo – disse Marco. – mas você me dá a sua palavra?
― Faço qualquer coisa!
Marco abriu um sorriso ― Foi o que pensei.
Ele tornou a entrar no quarto. Caminhou em direção ao leito, desta vez parando junto à cabeceira. Abriu o cinto e tirou o casaco, deixando-o de lado. Então, tirou a luva que faltava e dobrou a manga da camisa. Com a unha do indicador executou um gesto leve sobre o pulso. Imediatamente um ferimento se abriu, jorrando grande quantidade de um sangue espesso e escuro, quase viscoso.
Enrico, encostado no umbral da porta, assistia a tudo. Ao ver sangue que escorria do pulso de Marco, apavorou-se, levando as duas mãos à boca.
Marco parecia não se importar com a reação do jovem. Da maneira como agia, era como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Ele pousou o pulso ensanguentado sobre a boca de Francesca, tomando antes o cuidado de deixar que algumas gotas generosas lhe caíssem sobre os lábios.
Ela, numa forma de impulso instintivo, começara a sorver o que lhe era oferecido. De início, vagarosamente, mas a volúpia logo começava a mostrar suas formas. Em pouco tempo, ela já pressionava o pulso dele em sua boca e bebia aquele sangue amaldiçoado como se fosse o próprio néctar da vida.
― Pare! – Enrico interveio. – O que você está fazendo?!
― Acalme-se, bambino – disse Marco, quase sussurrando. – O corpo moribundo quase sempre reconhece o remédio.
Não fosse aquela uma situação tão pavorosa e Enrico poderia jurar que Marco estava gostando. A expressão no rosto dele era alguma coisa parecida com prazer, enquanto sua mãe se alimentava de sangue vivo como um sedento do deserto no oásis. Enrico estava mesmo assustado.
A certa altura, Marco começou a ofegar. Foi quando ele forçou o pulso para longe dos lábios de Francesca e, num gesto brusco, afastou-se da cabeceira da cama.
Parecia cansado depois. Sua pele aveludada tornara-se ainda mais branca, embora, na aparência, estivesse menos radiante. Os pequenos vasos, antes rosados e quase imperceptíveis, evidenciavam-se avermelhados por toda a parte visível de seu corpo. De seus olhos se esvaíra toda a cor.
Enquanto isso, sobre a cama, Francesca contorcia-se, gemendo e soluçando.
Completamente atordoado, Enrico, apenas uma criança, não sabia se aquilo era dor ou outra coisa.
― O que há com ela? Você disse que ela ficaria bem!
― Ela ficará bem, caríssimo – disse Marco, ainda arquejando. – Você vai ver.



*******