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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

SANTA SARA KALI


Conhecida genericamente como a “padroeira do povo cigano” ou “a santa dos ciganos”, é quase impossível falar dos rhomá hoje em dia sem mencionar Santa Sara Kali.

Completamente desconhecida no Brasil até meados dos anos 90 (exceto pelos poucos que haviam lido Tradições Ocultas dos Ciganos, de Pierre Derlon, cuja primeira edição brasileira foi publicada em 1977, pela Livraria Bertrand), a santa foi popularizada pela novela Explode Coração (Rede Globo, 1995-1996). A partir daí, tornou-se um ícone, uma espécie de fetiche cultural, onipresente nas festas temáticas, autoproclamadas ciganas, e nos altares domésticos daqueles que se devotam às entidades espirituais ciganas.

Mas o que há de verdade nisso? Quem é, ou foi, Santa Sara? Ela é realmente a padroeira dos rhomá?

Vamos começar pela última pergunta, que tem a resposta mais imediata – quem visitar a pequena cidade francesa de Saintes-Maries-de-la-Mer, na Camargue, poderá ler, na última frase da plaquinha do lado de fora da igreja das Santas Maria Salomé e Maria Jacobé, a seguinte inscrição: dans la crypte: statue de Sainte Sara patronne des gitans, “dentro da cripta: estátua de Santa Sara, padroeira dos ciganos”. No entanto, melhor seria dizer que Sara é UMA padroeira dos rhomá; daqueles que se alinham, de alguma maneira, com as crenças católicas, é claro.

Por que dizemos UMA padroeira, com tanta ênfase no UMA? Porque Santa Sara é aquilo que chamamos aqui no Brasil de “santa de culto local”. É como a Nhá Chica ou Santa Anastácia, que contam com grande número de devotos em determinada região, mas não foram canonizadas, ou seja, não foram oficialmente reconhecidas pela Igreja Católica, e não são muito conhecidas fora daquela região.

É claro que o reconhecimento do Vaticano não é algo imprescindível para os devotos de qualquer santo, muito menos para os devotos rhomá, que, como já dissemos, não têm muita consideração pelas autoridades religiosas dos gadjé. O fato, entretanto, é que Sara não é muito conhecida fora da Camargue, assim como a Nhá Chica não é muito conhecida fora do estado de Minas Gerais. É uma santa de devoção, principalmente, dos manush e dos calé que vivem no sul da França. Sua devoção atinge até o município espanhol de Girona, próximo aos Pirineus. Para além disso, os calé que vivem em outras regiões da Espanha têm outras padroeiras, Como a Virgen de La Macarena e a Virgen del Rocío. No Brasil, considera-se Nossa Senhora Aparecida a padroeira dos ciganos, e a imagem dela é muito mais frequentemente encontrada nos lares rhomá do que a de Santa Sara.  

Por que, então, todo o frisson acerca de Santa Sara? Tudo começou com a já mencionada novela, e foi levado adiante por um sem-número de pessoas que literalmente pegaram carona no sucesso midiático. De repente, Santa Sara, ela mesma uma santa desconhecida e exótica, estava na TV, no rádio e nos livros; tornou-se portadora de toda a carga simbólica de um povo exótico, com uma espiritualidade exótica.

É bem verdade que algumas vezes a devoção fervorosa – e um tanto forçada – a esta santa chega a parecer uma condição imperativa para a afirmação da identidade romani aqui no Brasil. Você dificilmente encontrará um evento temático em que não haja um simulacro de altar para Santa Sara. Todos os anos, quando chega o dia 24 de maio, inúmeros lugares, desejosos de ostentar uma autenticidade étnica que não possuem, promovem “slavas” ao custo de um ingresso, ainda que os responsáveis por isso jamais tenham estado em uma slava de verdade e não façam a mínima ideia do que estão fazendo.

Nada será considerado “cigano” o bastante se não tiver uma imagem enfeitada de Santa Sara no meio. Lamentavelmente, ela se tornou a referência dos que não têm referência; um símbolo esvaziado de conteúdo, um recurso evocativo e estético.

Isso significa que não há pessoas e famílias rhomá sinceramente devotas de Sara? É claro que não. Eu mesmo sou muito devoto de Sara e minha família se reúne todos os anos para um bródio, que é uma das formas como os calé se referem às suas festas, em homenagem à Negrinha, que é como nós a chamamos, carinhosamente. Nada disto significa, também, que pessoas não-ciganas estão de alguma forma impedidas de nutrir sincera e honesta devoção por Sara. O fato de uma parte do nosso povo tê-la escolhido (ou ter sido escolhida por ela) não faz dela nossa propriedade. Aliás, a esta altura já deveria estar claro que os rhomá não acreditam que o espiritual, o divino e sagrado, como a própria Terra, sejam propriedade de ninguém.

Mas quem é, afinal, Santa Sara? Para responder a esta pergunta, precisamos falar de um fenômeno religioso que existe no mundo todo, mas é muito recorrente na Europa – as Virgens Negras. As Virgens Negras são estátuas femininas, invariavelmente de pele escura, que aparentemente representam a Virgem Maria, e cuja origem é envolta em mistério. Um exemplo bastante familiar ao povo brasileiro é o de Nossa Senhora Aparecida, cuja imagem surgiu, inicialmente sem a cabeça, na rede de um pescador. Outro exemplo é La Moreneta, a Virgem de Montserrat, que, segundo consta, surgiu de dentro de uma rocha atingida por um relâmpago no Montserrat, na Espanha. Santa Sara é também uma das virgens negras.  

Ninguém sabe ao certo como sua imagem foi parar naquela igreja, é como se sempre tivesse estado lá. A imagem original era um busto simples, que hoje está guardado no museu da cidade. A respeito dela, um número considerável de lendas foi criado. Alguns contam que era uma escrava egípcia, outros que foi uma sacerdotisa Lídia; há quem jure que era uma cigana ou até mesmo filha de Maria Madalena e Jesus.

A história da barquinha é a mais famosa e a festa anual de Saintes-Maries-de-la-Mer gira em torno dela. Em uma versão, Sara vinha na barquinha, com José de Arimatéia e as três Marias, Madalena, Salomé e Jacobé. Em outra, mais difundida na Camargue, ela já estava lá, quando teve uma visão sobre a chegada das Santas Marias e foi para a praia esperá-las. É por causa disso que a procissão de Sara acontece um dia antes da das Santas Marias, no dia 25.

Historicamente, porém, as datas não coincidem. Sabemos que não é possível falar de ciganos, ao menos não de rhomá, antes do século XI, o que anula efetivamente a possibilidade dessa Sara da lenda ter sido uma cigana. O mais antigo registro que existe de uma Sara naquela região é do século XVI e diz respeito a uma mulher que teria atravessado Camargue a pé, mendigando para ajudar uma pequena comunidade cristã que enfrentava grandes dificuldades.

Como começou o culto à Santa Sara em Saintes-Maries-de-la-Mer, ninguém sabe dizer. Tampouco existe alguma explicação verificada e irrefutável para o fato de os rhomá daquela região a terem adotado como sua santa padroeira. Conjecturas há, aos montes. Para alguns, o busto que havia na igreja pode ter sido não de uma santa, mas uma homenagem a esta Sara andarilha, capaz de atravessar quilômetros a pé para ajudar sua comunidade religiosa. O fato dela ser uma caminhante, que atravessava cidades mendigando, teria levado à sua associação com os rhomá.

Pessoalmente, acredito que a explicação, embora absolutamente desnecessária, seja mais simples. Sara figurava em uma cripta, que está no subsolo da igreja, à margem de seu espaço principal, exatamente como os rhomá estão quase sempre a margem do espaço principal das cidades. Ela não está apenas à margem, também está abaixo, no subsolo, de onde algumas de nossas lendas dizem que vieram os nossos mais antigos ancestrais. Não obstante, ela tem a pele escura, daí chamá-la kali, em romani, que significa “negra”. Hoje é bastante comum encontrarmos rhomá de pele bem clara, alguns até louros, de olhos verdes ou azuis, mas nosso fenótipo original – que certamente tinham os nossos antepassados ao chegarem à Europa – é a pele, os cabelos e os olhos bem escuros. Então é provável que os manush e os calé do sul da França apenas tenham visto em Sara alguém que era como eles, que os entendia e que poderia, desta forma, melhor interceder por eles junto a Duvvel, o criador.        


Não é demais lembrar que não existe uma religião romani. O culto a Santa Sara é católico, mesmo que possua muitos aspectos sincréticos, o que não é de modo algum estranho ao catolicismo. Da mesma forma, são católicos todos os cultos aos santos padroeiros que os rhomá adotam em outros lugares do mundo. Há rhomá de outras denominações religiosas, e até mesmo rhomá que não têm religião alguma para quem falar em santos padroeiros, seja Sara ou qualquer outro, não faz qualquer sentido. Eles não são menos rhomá por causa disso. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

FIDEL CASTRO E OS CIGANOS




Em 2001, foi realizada em Durban, África do Sul, a Primeira Conferência Mundial contra o Racismo convocada pelas Nações Unidas. Estiveram presentes trinta presidentes e chefes de governo de todo o mundo e 166 ministros das Relações Exteriores, serviços sociais ou de trabalho. Além disso, como expectadores, estavam presentes dezenas de ONGs, bem como as organizações mais representativas de movimentos sociais e direitos humanos do planeta. A delegação oficial espanhola foi chefiada pelo Ministro do Trabalho e dos Assuntos Sociais, Juan Carlos Aparicio, bem como o Secretário-Geral de Assuntos Sociais, Concepción Dancausa. Da mesma forma, na condição de expectadores, o ministro decidiu convidar outras pessoas entre as quais estavam Sauquillo, o Professor Tomas Calvo Buezas e o presidente da Unión Romani para acompanhar o desenrolar da Conferência.

Foi assim que eu vi o início da Conferência:

Cheio de entusiasmo cheguei a Durban e creio que fui um dos primeiros a instalar-me no Centro Internacional de Convenções, a fim de obter um bom lugar para ver e ouvir de mais perto possível a maior parte dos líderes mundiais.

A aparência do plenário da conferência era impressionante. Ela foi dividida em três partes. A primeiro foi uma espécie de palco montado acima do nível do chão. No centro do palco, havia uma mesa decorada com a bandeira da ONU. Depois sentou-se para presidir a cerimônia de abertura o Sr. Thabo Mbeki, Presidente da República da África do Sul e o então Secretário Geral das Nações Unidas, Kofi Annan. E à direita, sobre outras plataformas que se alinhavam elevadas como em uma escada, foram colocadas as cadeiras mais vistosas e elegantes, onde se sentaram os chefes de Estado que naquele momento estavam na cidade. Foi aí que eu vi, pela primeira vez, Fidel Castro, Yasser Arafat, e o resto das personalidades que ocupavam os lugares de privilégio.

A segunda divisão do salão, que começava aos pés do palco, era destinada aos representantes Oficiais dos 160 Estados presentes na Conferência. Cada delegação teve uma pequena mesa sobre a qual havia um grande cartaz com o nome do país que devia ocupar aquele lugar, e, imediatamente atrás da mesinha, quatro cadeiras, duas na frente e duas atrás, vestidas com um tecido vermelho vistoso. Imediatamente eu vi a que correspondia à Espanha e esperei ansiosamente a chegada de nossos representantes oficiais.

A terceira parte do salão, onde eu estava, foi reservada para os expectadores credenciados pelos respectivos governos. Neste espaço não havia lugar designado e todos poderiam sentar-se onde achassem melhor. A separação entre os expectadores e os ministros consistia numa faixa de cerca de quatro metros de largura sobre a qual foram colocados uma série de suportes verticais de um metro de altura, devidamente separados. Esses suportes serviam para segurar um grosso cabo azul entrançado que os ligava uns aos outros por um gancho na parte superior das colunas separadoras. Nesta faixa, havia vários policiais elegantemente uniformizados, que, suponho, estavam ali para garantir a separação entre o espaço dos senhores ministros e o dos demais.

O ministro espanhol não aparecia em parte alguma.

Em poucos minutos o salão estava lotado. As grandes personalidades tomaram seus lugares e os ministros, acompanhados por seus assessores, foram ocupando as mesinhas a eles destinadas. Mas eu comecei a ficar nervoso quando vi que já não faltava mais ninguém e a mesinha reservada para a delegação oficial espanhola continuava vazia. Por fim, momentos antes de o Secretário-Geral das Nações Unidas anunciar o início da conferência, a delegação espanhola entrou e ocupou seus lugares. Foram os embaixadores da Espanha em Joanesburgo e para as Nações Unidas e um funcionário do Ministério. Mas eram apenas eles três. Faltava o ministro, cuja cadeira permaneceu vazia.

A solenidade de abertura começou e eu ouvi atentamente as intervenções de tantas e importantíssimas personalidades. Devo dizer que, logo de início, o Secretário-Geral da ONU advertiu que seria muito rigoroso na gestão do tempo concedido aos oradores que seria o seguinte: os senhores presidentes e Chefes de Estado disporiam de dez minutos e os senhores ministros de cinco minutos cada um.

Mas a sessão continuava, o tempo avançava e o ministro espanhol não chegava. Meus olhos permaneceram fixos em sua cadeira vazia. Assim, terminaram de falar as mais altas personalidades, e foi então que Koofi Annan deu a palavra aos ministros presentes, advertindo-lhes de que seria muito rigoroso na administração do tempo a eles destinado. Então, dirigindo-se a Assembleia, ele disse:

— Senhores ministros que desejam fazer uso da palavra no próximo turno, manifestem-se em voz alta pondo-se em pé.

Meu humor era o de um vulcão em erupção. O ministro espanhol não chegava e a Espanha perderia a oportunidade de marcar a sua posição sobre o racismo e a discriminação em uma ocasião irrepetível. E começaram a ouvir-se as vozes dos representantes oficiais dos Estados manifestando o seu desejo de falar:

— Canadá, disse o ministro norte-americano; Letônia, Filipinas, Cuba, México. Foram dez os ministros que desejaram intervir. E o nosso ministro não apareceu. Eu esperava que algum dos embaixadores levantasse a voz em nome do nosso país, a fim de dar tempo ao nosso ministro que ainda não havia chegado. Mas eles não o fizeram. E naquele momento eu tomei uma decisão ousada sem medir bem suas possíveis consequências. Levantei-me rápido e pulei o cordão azul que separava os expectadores dos representantes oficiais. Os policiais próximos ficaram tão surpresos que não foram capazes de agir para impedir a corrida rápida com a qual cheguei à mesa que comportava o cartaz do nosso país. Sentei-me na cadeira reservada para o nosso ministro e, a partir dela, dirigindo-me a presidência da Conferência, eu disse:

— Espanha!

Eu tremia como as folhas das árvores. Do fundo do meu coração, eu pedi a Deus para que o ministro aparecesse, para que pudesse fazer uso da palavra quando fosse chamado pela tribuna. Os membros da delegação me disseram que o avião em que vinha [o ministro] para a África do Sul estava atrasado e que também esperavam que, a qualquer momento, ele poderia chegar. No entanto, devo dizer que, embora eles tenham me tratado com respeito, me advertiram de que meu comportamento poderia me trazer consequências muito graves; que eu havia feito uso de uma prerrogativa que não era minha e que falar em nome da Espanha, quando não se tem a legitimidade ordinária para fazê-lo, poderia ser um delito penalmente imputável.

— Por Deus, por Deus, que apareça o ministro – eu pedia do fundo do meu coração. Mas o ministro continuava sem aparecer quando trovejaram em meus ouvidos as palavras do Secretário-Geral das Nações Unidas, dizendo:

— Tem a palavra o senhor Ministro do Trabalho e dos Assuntos Sociais, representante do Reino da Espanha.

E eu me levantei e comecei a falar, embora meus companheiros acidentais de mesa tenham me advertido para que medisse bem minhas palavras no intuito de não provocar nenhum tipo de conflito diplomático. 

Eu fiz o meu discurso. Comecei dizendo que eu não era o Ministro do Trabalho e dos Assuntos Sociais da Espanha, mas, em sua ausência, acreditava que poderia expor na Conferência a realidade do meu país e do mundo no que diz respeito aos tratamentos racistas e preconceituosos que sofriam os membros da minha comunidade, os ciganos, na maioria dos países membros das Nações Unidas.

Devo dizer, com certo rubor, que enquanto o presidente da Conferência advertiu a alguns ministros de que seus cinco minutos tinham acabado, foi especialmente generoso comigo, porque eu estava expondo a minha história por quase nove minutos e ele não chamou a minha atenção.

Ao terminar, me sentei na cadeira ministerial e fiz o gesto de voltar ao lugar dos expectadores, mas meus “momentâneos” companheiros de Delegação me disseram que não o fizesse e que permanecesse sentado onde estava.

E foi nesse momento que o Presidente da República de Cuba, Fidel Castro, tomou a palavra para responder a minha fala. Já se passaram anos e ainda me excita a memória de suas palavras. Mais ou menos, ele disse o seguinte:

— Quero manifestar aqui o meu total acordo com o que disse o representante da Espanha. A luta do povo cigano para defender seus direitos deve ser apoiada por esta Conferência e isso deve constar na sua declaração final. As palavras do representante espanhol foram palavras oportunas, cheias de legitimidade e sentido comum.

A partir daí, Fidel Castro se manifestou como o Fidel Castro que todos conhecemos. Uma vez no uso da palavra, a fim de apoiar o que eu havia dito, ele começou a contar sua experiência com os ciganos europeus, especialmente aqueles que viviam sob algum regime comunista dependente da União Soviética. Ele mostrou um especial conhecimento sobre a vida dos ciganos romenos, sobre os quais, disse, havia conversado em alguma ocasião com o presidente do país, Nicolae Ceausescu.

Quando a sessão terminou, tive que atender a muitos meios de comunicação e, especialmente, aos espanhóis que, mais uma vez, manifestaram sua complacência por minhas palavras. Mas meus alarmes começaram a tocar quando um funcionário da embaixada espanhola em Joanesburgo veio me dizer:

— O senhor ministro quer vê-lo e me pede para perguntar se você poderia jantar com ele esta noite.

Naturalmente, eu disse que sim. E desde aquele instante começou a me cair mal o jantar ao qual ainda nem havia ido.

Quando cheguei ao reservado onde acreditava que o ministro estava me esperando para dar a grande bronca, me encontrei em uma mesa ao redor da qual havia pelo menos dez pessoas. Pensei comigo mesmo: “O ministro quer isentar-se de qualquer responsabilidade chamando-me a atenção diante de testemunhas por haver tomado o seu lugar sem ser autorizado a fazê-lo.”

Mas não foi assim. Juan Carlos Aparicio Pérez, que foi um bom ministro do Trabalho e dos Assuntos Sociais, veio a mim, apertou minhas mãos com força, e adivinhando meu estado de espírito, disse:

— Não se preocupe. Você fez muito bem. Eu pedi a gravação de suas palavras e as ouvi. E quero te dizer que você deixou o nome da Espanha na melhor posição para que possamos, a partir de amanhã, defender a nossa posição com maior força e autoridade. Além disso, depois do que Fidel Castro disse sobre a sua exposição, quem poderia duvidar do quão oportuna ela foi? Então sente-se e vamos jantar com tranquilidade.

Mas a história não termina aqui.

No dia seguinte, vários membros da nossa delegação e eu estávamos dando um passeio por uma das ruas de Durban, quando fomos surpreendidos pelas sirenes de umas motos enormes em que montavam quatro policiais, duas na frente e duas atrás de um grande carro preto. A fim de não sermos atropelados, nos refugiamos no acesso de entrada de um grande hotel, em cujas portas estávamos. Acontece que o mandatário que estava tão bem escoltado dirigia-se justamente para aquele hotel, e o carro parou quase em frente dos nossos narizes. Dele saiu Fidel Castro, que imediatamente foi cercado por sua escolta pessoal para entrar no hotel.

— Senhor Presidente, Senhor Presidente! – Eu disse, levantando a voz a fim de chamar sua atenção, no que obtive sucesso, porque Fidel Castro parou e ficou me olhando surpreso. – Senhor Presidente, desculpe a interrupção. Eu sou o cidadão espanhol que falou ontem no plenário da Conferência e gostaria de aproveitar a oportunidade de tê-lo tão perto para agradecer por suas palavras. Realmente, senhor Presidente, muito obrigado.

Então aconteceu o que eu nunca poderia ter imaginado. Fidel Castro me esquadrinhou com os olhos, afastou com a mão a escolta que se interpunha entre nós e disse:

— Bem, bem, o homem, é que me impressionou muito o que você disse. Então você é cigano? Venha comigo que eu quero falar com você.

Ele fez um gesto para que os guardas me deixassem passar e, me tomando pelo braço, entramos juntos no hotel, onde tranquilamente tivemos uma agradável conversa. Ele me perguntou um sem-número de coisas sobre os ciganos ao mesmo tempo em que me fez conhecer seus sentimentos em relação a nossa cultura e nossa maneira especial de entender e valorizar a liberdade.

Descanse em paz e que Deus possa perdoá-lo, como a todos nós, pelas coisas ruins que possamos ter feito ao longo de nossas vidas.

Juan de Dios Ramírez-Heredia
Advogado e jornalista
Presidente da Unión Romani.


Traduzido para o português por Mikka Capella.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

8 DE ABRIL - SOBRE O DIA INTERNACIONAL DOS POVOS CIGANOS




Amanhã, dia 8 de abril, é o Dia Internacional dos Povos Ciganos. Eu gostaria de dizer algumas palavras sobre este dia e vou fazer isso hoje porque não sei se amanhã vou ter tempo... 

Essa data é celebrada desde o dia 8 de abril de 1971, antes mesmo da fundação da International Romani Union, em 1978, como resultado do primeiro Congresso Mundial Romani, realizado em Londres. Entre outras questões, os congressos, que acabaram resultando na fundação de uma entidade ligada à ONU, tinham como objetivo desfazer os diversos estigmas sociais que pesam sobre a comunidade romani, não apenas na Europa, mas no mundo todo, e servem para justificar toda a sorte de preconceito e injustiça social. 

Durante séculos, os povos romani, também chamados "ciganos", encontraram como forma de se proteger em uma realidade extremamente hostil e excludente o segredo. Protegeram a sua língua, como uma forma de se comunicar à qual os gadjé (não-ciganos) não deveriam jamais ter acesso, e conversavam sobre suas particularidades usando principalmente essa língua, secreta e proibida, que em Portugal foi chamada “geringonça”. Hoje, com toda a complexidade que vem junto com um mundo globalizado, que se debruça ostensivamente sobre as questões dos direitos humanos, existe outro entendimento - apenas a informação pode salvar os povos romá da extinção.

Não mais o mistério e o segredo que sempre caracterizaram os ciganos, por trás de olhos negros e saias coloridas, mas a exposição de uma cultura humana, rica com suas falhas e belezas, complexa e dona de uma historiografia extensa e ainda pouco estudada. A única forma de combater os estigmas sociais, todo o preconceito que, no curso de um milênio, formou-se sobre nós, é expor a nossa verdade e, assim, mostrar ao mundo que existimos. Sair da invisibilidade. E é neste sentido que a maior parte dos esforços ao redor do mundo estão se orientando hoje... Exceto no Brasil. 

Aqui no Brasil formou-se uma consciência mítica, eu diria mesmo religiosa, em torno do que é ser cigano. Existe uma espiritualidade brasileira que trabalha com entidades espirituais que teriam sido ciganas quando foram pessoas vivas. Da mesma maneira que essa espiritualidade trabalha com entidades que teriam sido indígenas e negros africanos quando vivos, mas apenas sobre os ciganos formou-se uma aura mística que os coloca em um nível quase lendário, desprovido de existência real e humana. 

Dentro deste universo, são costumeiramente promovidos eventos e festas temáticas sob o pretexto de “ajudar a divulgar a cultura cigana”, mas no interior dos quais cada estigma social e estereótipo que recai sobre nosso povo é lamentavelmente mantido e perpetuado. Inclusive com o endosso de algumas pessoas ciganas, que sabem a verdade, mas naquele momento preferem tirar vantagem – seja por meio de um modo de ganhar a vida (geralmente música e oráculos) ou meramente o encantamento dos olhares bajuladores, que enxergam pessoas como nós como se fôssemos de outro mundo. Pessoas essas que algumas vezes se dizem muito tradicionais e se acham dignas de subir em um pedestal, de onde podem julgar e apontar o dedo para outros ciganos, que, como eu, talvez não sigam certos preceitos culturais (retrógrados e ultrapassados, como machismo e homofobia) à risca, mas jamais venderam a cultura e o legado de seus ancestrais, nunca ganharam com toda essa sujeira uma moeda sequer e continuam se recusando a prestar endosso a algo que, coletivamente, vem prejudicando a todos nós. 

Então eu gostaria de, por este dia, parabenizar APENAS aos romá brasileiros que NÃO se venderam. Os romá que procuram levar uma vida digna e jogar luz sobre a existência de nosso povo sem colaborar com a manutenção e propagação de estereótipos nocivos e equivocados. Aos romá que nunca mudaram de lado e jamais aceitaram vender sua própria cultura, o legado de seus ancestrais, por trocados e alguma bajulação gadjé. Porque existem aqueles que ontem condenavam o circo que hoje os aplaude e paga suas contas... Sobre esses, eu desejo, sinceramente, que recaia a maldição dos nossos ancestrais, e que a sorte os abandone como a dignidade, que há muito já se foi.

O Diel thie avén amentsá!

terça-feira, 21 de outubro de 2014

QUESTÕES E MAIS QUESTÕES...



No último domingo, dia 19 de outubro, eu participei de uma mesa de perguntas e respostas que aconteceu na III Fiesta Gitana, organizada e produzida pelo amigo Ricardo Samel. O formato, inovador para as festas do gênero, consistiu em perguntas que eram feitas por escrito pelos convidados e depois sorteadas na mesa, por mim ou pela escritora e amiga Cristina da Costa Pereira. 

Em virtude do tempo, algumas perguntas ficaram sem ser respondidas e nós, Cristina e eu, nos comprometemos com respondê-las depois, via e-mail e internet. Conforme o prometido, sorteamos as oito questões restantes e cada um de nós levou quatro para casa. Posto aqui as minhas:

1 - "De qual continente vieram os ciganos?" 

Essa é bastante simples: da Ásia. Existe muita controvérsia quanto à origem dos rhomá (ciganos). A hipótese mais aceita, por conta de evidências linguísticas e genéticas, é a de que tenham vindo do noroeste do subcontinente indiano, da região onde hoje se situam o Paquistão e o estado indiano do Rajastão. Outras hipóteses dariam conta de uma possível origem semítica ou de um povo anterior às invasões árias que deram origem ao próprio povo indiano. Mas todos parecem concordar que a origem dos ciganos se deu no continente asiático.

2 - "Por que o cigano é um povo nômade?" 

Essa não é uma questão de resposta simples. Por tudo o que sabemos e já conseguimos reconstruir da diáspora romani, o nomadismo não parece ter sido uma escolha, mas uma imposição, já que os ancestrais do povo rhomá (ciganos) foram expulsos de suas terras originais durante as invasões islâmicas no século XI ou foram levados como escravos, nesta mesma época, para a Pérsia. Da Pérsia, teriam partido rumo ao oeste por causa do acirramento dos conflitos religiosos entre cristãos e muçulmanos, ou seja, novamente por força das circunstâncias. Já na Europa, onde uma parte penetrou pelo Bósforo, na Grécia, e outra parece ter entrado pelo Estreito de Gibraltar, eles sofreram perseguição desde o início e nunca puderam permanecer por muito tempo no mesmo lugar.

Com o tempo, acabou se criando uma noção romantizada do nomadismo, em que ele é associado a um “espírito livre”, uma natureza indomável que seria característica dos rhomá. Muitos rhomá, inclusive, tomaram para si essa ideia, a exemplo do famoso poeta Spatzo (de origem sinti), que dizia: “o céu é meu teto, a Terra é minha pátria e a liberdade é a minha religião”. Mas essa parece ter sido uma tendência originada do hábito romani de abraçar o próprio destino e tirar forças da adversidade. Então podemos dizer que o nomadismo foi, a princípio, uma imposição, depois entendido como uma espécie de sina e hoje é interpretado pela maioria dos gadjé (não-ciganos) e também alguns rhomá como uma expressão de liberdade.

3 - "Em que local do Brasil existe a maior comunidade cigana?". 

Em Sousa, na Paraíba. Uma comunidade que começou a se formar nos anos 50 e hoje é composta por três ranchos em que vivem cerca de 1500 famílias.

Há um curta-metragem disponível na internet, que foi produzido a partir de vídeos feitos por um adolescente da própria comunidade. Nele, é possível conhecer um pouco da realidade desses ciganos e dos problemas que eles enfrentam. Segue o link para assistir o vídeo: 


4 - "O que você ou nós poderíamos fazer para divulgar mais essa cultura, que estou começando a conhecer e acho bonita?"

Bom, a primeira coisa que você deve ter em mente é aprender o máximo que lhe for possível sobre a cultura antes de pensar em divulgá-la. Os rhomá, atualmente, estão num processo de organização política, começando a brigar por direitos e visibilidade. Neste processo, pessoas como eu, Cristina da Costa Pereira, alguns artistas e intelectuais, ciganos e não-ciganos, já estamos trabalhando para trazer mais informação sobre nossa cultura, com vistas mesmo a enfrentar o preconceito. Mas confesso que nosso maior desafio tem sido desconstruir informações equivocadas geradas, principalmente, por pessoas que misturam o povo rhomá com crenças religiosas completamente estranhas à etnia (algumas até bem intencionadas, outras nem tanto...). Então meu conselho, já que você acha bonita a nossa cultura, é para que estude e procure se informar da melhor maneira possível, em fontes confiáveis, sobre nosso povo. Simplesmente fazendo isso, você já estará ajudando muito mais do que pode parecer.

Um forte abraço e o meu muito obrigado a todos. 



sexta-feira, 5 de setembro de 2014

QUALQUER CHÃO LEVA AO CÉU



Faz algum tempo que a amiga Cris Penedo resolveu me dar um presente fora de ocasião - essas coisas que vêm da alma - e me apresentou à escritora Cristina da Costa Pereira, por quem eu já nutria profunda admiração há muitos anos. E Cristina, como o doce de ser humano que é, também me presenteou, já em nosso primeiro encontro, com um exemplar de seu último trabalho: Qualquer Chão Leva ao Céu, a história do menino e do cigano.

Como todo bom leitor aficionado, eu tenho a minha pilha ao lado da cama (risos). Mas, recentemente, consegui colocar a leitura em dia e finalmente peguei o livro de Cristina para ler. A princípio, timidamente, como acontece com qualquer nova relação. Mas a fluidez da escrita, aliada à leveza da narrativa, foi me absorvendo num torvelinho de carência, desejo e necessidade, de maneira tal que eu, um leitor vagaroso, devorei o livro inteiro em apaixonada volúpia, no curso de apenas três dias.

Qualquer Chão Leva ao Céu não é o estilo de livro que estou acostumado a ler (aquelas sombrias ficções de horror). É um livro leve, voltado para o público jovem, chega mesmo a ser pueril. Mas Cristina nos pega de jeito ao fazer de Jorge, um menino de rua, o personagem principal. E em suas idas e vindas pelas tortuosas estradas da vida, ele se depara com Latsi, ou Euclides, um cigano desgarrado de seu povo, atormentado pela lembrança da esposa e do filho, que morreram em um trágico desastre de automóvel. Devagar, bem ao modo das irredutíveis fiandeiras do destino, Latsi e Jorge percebem que as tramas de suas vidas, um cigano e um gajãozinho, estão irremediavelmente ligadas.

A maneira como Cristina constrói o personagem cigano, ou melhor, o universo cigano é, para mim, o ponto alto do livro. Talvez por conta de seus mais de 25 anos de pesquisa e estudos junto aos nossos, ela, uma gadji (não-cigana), conseguiu mostrar os ciganos de forma realista e visceral. Não apenas no que diz respeito aos artefatos, os ritos culturais, mas também - e principalmente - no que diz respeito ao sentir e ao pensar romani. Isso, o sentir e o pensar, é justamente a coisa que eu JAMAIS vi um gadjo (não-cigano) admirador de nossa cultura conseguir entender... Até agora. Porque Cristina, em sua prosa que beira mesmo a poesia, conseguiu o impossível - mergulhar na alma cigana, nadar em seus mistérios.

Os ciganos representados no livro são do grupo Rom, com todas as suas características e peculiaridades culturais. Mas a alma que transborda deles, essa essência tão familiar e completa, é a intercessão que existe entre todos nós, e Cristina, em sua delicada sensibilidade, foi capaz de enxergar de forma surpreendente. Tanto que em alguns momentos, companheiro de Latsi, senti o coração apertado de saudade.

Recomendo para todos os admiradores e interessados em conhecer um pouco mais da milenar cultura romani. Mais do que sobre a cultura romani, no entanto, este é um livro sobre alteridade... E sobre os altos muros que nos separam.

quinta-feira, 27 de março de 2014

ENTREVISTA COM O CIGANO



O querido João Bosco Araújo, lá de Sousa, que já é um ativista da causa cigana há muitos anos, está fazendo seu TCC da graduação em Serviço Social sobre os ciganos e as políticas públicas no Brasil. Com o objetivo de colher dados para o projeto e aprender um pouco mais sobre a maneira como pensam romá de diferentes procedências e cantos do Brasil, ele resolveu entrevistar alguns de nós. Este que vos escreve, como não poderia deixar de ser, foi um dos ilustres escolhidos. (risos) 

Brincadeiras a parte, a iniciativa do Bosquinho está de parabéns! A entrevista ficou tão legal que resolvi - com a autorização dele, é claro - postar aqui no blog. O resultado vocês podem conferir aí embaixo! ;-)

Você é cigano?

Sim.

Pertence a qual grupo étnico (Rom, Sinti ou Calon)?

Meu pai é calon, da Paraíba, minha mãe é sinti, descendente de imigrantes italianos. Pela tradição, eu seria calon. Mas como fui criado na família de minha mãe e tive pouco contato com a família de meu pai, me considero sinti.

A qual subgrupo étnico pertence (kalderash, lovari, matchuayia, carrapicheiro, etc.)?

Brasiliako, descendente de italiaias.

Ainda pratica o nomadismo ou o semi-nomadismo?

Não.

Sua família ou amigos ainda praticam o nomadismo ou o semi-nomadismo?

Não.

Conhece ou tem contatos com grupos nômades ou semi-nômades?

Conheço alguns grupos nômades e algumas famílias que praticam o semi-nomadismo, mas não tenho muito contato com eles.

Possui documentos civis (certidão de nascimento, identidade, CPF, título de eleitor)? Quais?

Sim. Tenho todos os documentos. Certidão de nascimento, carteira de identidade, CPF, título de eleitor...

Costuma votar nas eleições periódicas?

Sim, em todas elas.

Prestou alistamento militar?

Sim, também tenho o certificado de reservista.

Você se considera um cidadão brasileiro?

Com certeza.

Frequentou escola regular? Se sim, cursou até que série?

Sim, frequentei. Cursei todo o ensino fundamental e médio. Atualmente estou cursando História na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Acha a escola importante para os ciganos?

Com certeza. Sem educação o nosso povo jamais conseguirá conquistar o seu lugar de direito no mundo.

Já precisou ou fez uso de hospitais ou médicos da saúde pública? Se sim, como foi o atendimento?

Sim, algumas vezes. Como tenho todos os documentos civis, o atendimento foi normal, apenas ruim como a saúde pública no Brasil é.

Já sofreu preconceito ou discriminação por ser cigano?

Minha família, há muito tempo, optou por viver na condição de cripto-ciganos, então não temos o hábito de falar de nossas origens, o que sem dúvida evita muito preconceito. Mesmo assim, já sofri preconceito por parte de pessoas que, desinformadas, acham que ser cigano é pertencer a alguma religião. 

Para você, o que é ser cigano, como se constrói essa identidade?

Ser cigano é ter uma descendência que remete a um povo de origem oriental que por alguma razão misteriosa ganhou o mundo, tornando-se nômade, em algum momento do século XI. Mais que isso, ser cigano é ser o herdeiro das tradições desse povo, tradições essas pelas quais devemos zelar e que somos responsáveis por perpetuar, para que nosso povo e nossa linhagem não desapareçam da face da terra.

Como você vê a situação dos ciganos hoje no Brasil?

Em relação à Europa, onde as perseguições vêm crescido de maneira assustadora, nossa situação aqui é muito boa. Também é muito mais fácil para um cigano se integrar à sociedade não-cigana morando num país miscigenado como o Brasil. No entanto, a invisibilidade do povo cigano, de maneira geral, ainda é um fato. Muitos não sabem que somos um povo, com cultura e história própria, nos confundem com religiões e uma grande parte de nós ainda vive às margens da sociedade, no analfabetismo, em situação precária e privada dos direitos civis e sociais mais básicos. Ainda há muito pelo que lutar.

Como você acha que deveriam ser as políticas públicas voltadas para o povo cigano hoje no Brasil?

A primeira coisa é dar o reconhecimento aos ciganos de minoria étnica. Somos uma minoria étnica presente nessas terras desde o período colonial e tivemos participação ativa na construção da cultura e da identidade brasileira, como muitos estudos recentes comprovam. Merecemos ser reconhecidos e valorizados enquanto ciganos dentro da sociedade. Uma vez que se reconheça isso, o próximo passo seria tratar das necessidades especiais dos ciganos em função de seu modo de vida. Ainda há muitos, como eu disse anteriormente, vivendo à margem da sociedade, privados de direitos básicos, sem acesso á saúde e à educação, como verdadeiros párias em pleno século XXI.

Do seu ponto de vista, quais as maiores necessidades dos ciganos hoje, no Brasil?

Eu acho que a maior necessidade dos ciganos, hoje, no Brasil é reconhecimento. Precisamos ser reconhecidos como pessoas, membros de uma comunidade tradicional, precisamos que vejam que estamos aqui, porque a maior parte de nós simplesmente não é vista, é vista apenas em períodos eleitorais ou é pensada como entidade de algum culto religioso. Somos pessoas, temos necessidades, o Brasil precisa descobrir essa realidade.

Em segundo lugar, vem a questão da educação, que para mim é muito séria. Tenho a impressão de que a maior parte dos ciganos brasileiros ainda não percebeu a importância que a educação tem na construção do nosso futuro. É preciso pensar na questão da educação, para modificar verdadeiramente nossa realidade no longo prazo, e vejo isso como um desafio tanto para as políticas públicas quanto para os próprios ciganos.

Como é, do seu ponto de vista, a relação dos ciganos com os não-ciganos?

Bem, isso depende. Os ciganos não são uma comunidade única e homogênea. Há diversas maneiras de se construir essa relação inter-sociedades, mas, de maneira geral, os ciganos têm relações comerciais com os não-ciganos. O que quero dizer com isso? Sabe a diplomacia que há entre os países, aquela coisa de ministro do comércio exterior? Então, é quase a mesma coisa. A maior parte das famílias estabelece laços comerciais/profissionais com os não-ciganos para garantir o sustento. No entanto, construir relações de amizade muito profundas, embora possa acontecer, não é algo comum ou mesmo procurado.

Com as novas gerações, todavia, essa realidade vem se modificando, o que é visto com preocupação e reservas pelos mais velhos.  

Você acha que uma integração maior entre as duas sociedades, cigana e não-cigana, poderia ser proveitosa para os ciganos?

Com certeza. O isolamento, historicamente, foi uma estratégia de sobrevivência, num mundo hostil, em que você estava seguro se seus inimigos soubessem o mínimo possível a seu respeito – e quase todos podiam ser vistos como inimigos em potencial. Hoje a realidade se inverteu. Há muito tempo eu percebi que a nova ordem do mundo é informação. Quem não é visto não é lembrado e da forma como as coisas estão instituídas, ninguém mais consegue sobreviver isolado, ninguém está seguro sozinho. Então, nessa nova delineação de necessidades, nós precisamos fazer as pessoas se interessarem por nós, precisamos fazê-las saber o máximo possível ao nosso respeito, preservando, é claro, a nossa individualidade. O comportamento dos judeus após a Segunda Guerra Mundial me ensinou isso.

É sabido que os ciganos, em geral, são uma das comunidades mais tradicionais e fechadas que existem. Você acha que existe a necessidade de mudar internamente alguns aspectos culturais, no sentido de tornar mais fácil a integração com o mundo não-cigano?

Sim, acho que esse é o ponto. É preciso, mais do que nunca, fazer um trabalho com os próprios ciganos, dentro das comunidades, porque isso que eu disse aí em cima, infelizmente, está muito longe de ser um pensamento comum ou aceito por todos. A maior parte ainda tem um desprezo, uma espécie de ressentimento pelas coisas do mundo não-cigano. A educação não-cigana, quer dizer, as escolas não são valorizadas. Os próprios ciganos, muitas vezes, se colocam à margem, como párias. É preciso mudar essa situação.

Também existe a questão da identidade. A identidade, para um povo nômade, espalhado pelo mundo todo, é uma questão de difícil consenso, e para muitos líderes ciganos, a mudança, mesmo que de apenas aspectos culturais, implica na dissolução, no esvaziamento da identidade cigana. Repensar essa questão é um grande desafio.

Historicamente, sabemos que muito do que hoje se considera “cultura cigana” pelos próprios ciganos é, na verdade, influência ou empréstimo cultural não-cigano, tomado de suas viagens pelo mundo. A cultura não-cigana, que, em geral, não precisa se preocupar com a definição de uma identidade étnica, muda muito rapidamente, ao passo que os ciganos, até por conta do valor que tem a oralidade para nós, tendem a se apegar muito intensamente aos valores antigos.

Assim, ainda é comum a exclusão de homossexuais, a mulher relegada a um papel social de submissão, homens que estudam apenas até aprenderem as operações matemáticas básicas por conta de suas necessidades comerciais, etc.

Pessoalmente, acho que a cultura cigana é muito mais do que isso e que nossa identidade não se define dessa forma. Outra vez recorro ao exemplo dos judeus, como um povo também de origem nômade, que soube se integrar à sociedade não-judaica sem, contudo, perder a identidade. Por que não poderíamos, nós, fazer a mesma coisa?

A partir das perspectivas de hoje, como você vê o futuro dos ciganos no Brasil?

Eu não diria o futuro, propriamente, mas vejo a tentativa de construir um futuro como uma luta contra o tempo, quiçá contra o destino. Os ciganos foram, desde sempre, mestres na arte de sobreviver. Passaram por perseguições, escravidão e genocídio. No curso da História, nossos antepassados souberam sobreviver melhor que qualquer outro povo. Mas hoje, não sei, as últimas gerações parecem ter perdido essa capacidade. O mundo mudou, eles perceberam, mas não estão sabendo se adaptar, coisa que sempre fizeram muito bem, e isso é ruim no longo prazo, ou seja, para o futuro.

Nunca fui niilista, pessimista ou coisa que o valha, mas, por tudo o que já disse aí em cima, se mudanças significativas não começarem a acontecer – e quando falo de mudanças não me refiro apenas às políticas públicas do Estado, mas às próprias relações dos ciganos com os não-ciganos e, principalmente, uns com os outros – rezo para que tenhamos um futuro. Pode parecer paradoxal que a sobrevivência de nossa identidade esteja mais ligada à maneira como interagimos e nos integramos com outras identidades do que à tentativa obstinada de manter essa identidade pura, protegida o máximo possível do contato com o outro, com a alteridade. A História e a Antropologia, no entanto, já provaram que é exatamente assim que as coisas são.

Obrigado. 

sábado, 1 de março de 2014

PORAJMOS - O HOLOCAUSTO CIGANO


Muito se tem falado sobre o genocídio judeu praticado pelo regime nazista da Alemanha de Hitler. Sobre o Holocausto, ou Shoá (do hebraico “catástrofe”), há uma infinidade de livros, fotografias, depoimentos, filmes... Mas nada, ou quase nada se conhece ou reproduz a respeito do genocídio generalizado que aconteceu nos campos de horror, também chamados “de concentração”.

Não eram apenas judeus nas fotos de cadáveres empilhados aos montes em valas de terra escura. Negros, deficientes físicos e mentais, homossexuais, latinos, ciganos e muitos outros também foram vítimas das Leis de Nuremberg. Talvez pela maioria desses grupos não contar com grandes representatividades político-econômicas, no entanto, eles têm ficado de fora da maior parte dos relatos acerca deste triste episódio da história humana.

Em 15 de setembro de 1935, por ocasião do sétimo congresso anual do Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores, as chamadas Leis de Nuremberg são adotadas, em sessão extraordinária, por iniciativa de Hitler. Elas consistiam de três textos, a saber Reichsflaggengesetz, a lei da bandeira do Reich, Reichsbürgergesetz, a lei da cidadania do Reich, e a Gesetz zum Schutze des deutschen Blutes und der deutschen Ehre, lei da proteção do sangue e honra alemães. Especialmente a segunda e a terceira dessas leis foram o que permitiu a disseminação de toda a desastrosa e infame política racial do Terceiro Reich.


Com base nessas leis, judeus e ciganos foram definidos como “inimigos do Estado” e tratados de maneira muito semelhante. Tal semelhança, em perseguições e fugas, acabou resultando numa espécie de aliança entre os dois povos, que, de certa forma, perdura até os dias de hoje. Basta dizer que para a maioria dos rhomá todos os não-ciganos são gadjé, exceto os judeus.     


Estima-se que o número de mortos rhomá esteja entre 220 mil e meio milhão, de um total de cerca de 700.000 vivendo na Europa àquele tempo. No entanto, segundo o doutor Sybil Milton, um historiador do Holocaust Memorial Research Institute, EUA, esse número pode chegar a um 1.500.000. 

A POLÊMICA DO TERMO PORAJMOS


Porajmos é uma palavra do romani que significa, ao pé da letra, “devoração”. Não é um termo comum e unânime, como se pode pensar num primeiro momento, mas foi cunhado pelo professor doutor Ian Hancock, da Universidade do Texas, que, como já dissemos, é rhom e um linguista renomado.

Hancock adotou o termo, que teria sido sugerido por um amigo kalderash numa conversa informal em 1993, para o genocídio romani da Segunda Guerra Mundial, já que o termo “Holocausto” parece estar ligado aos judeus de maneira indissociável. No entanto, ele permanece desconhecido para muitos rhomá, incluindo parentes das vítimas e sobreviventes.

Na verdade, alguns ativistas rhomá, sobretudo na Rússia e nos Bálcãs, protestam veementemente contra o uso da palavra. Ocorre que porajmos, em muitos dialetos do romani, é sinônimo de poravipe (violação, estupro), uma palavra considerada inadequada e até mesmo ofensiva.

Marcel Courthiade, um francês e outro catedrático e linguista especializado em romani, propõe o uso do termo samudaripen, que significa “assassinato em massa”. Dessa vez, os ativistas rhomá da Rússia e dos Bálcãs concordam, mas Hancock argumenta que a morfologia da palavra é inadequada. Em face disso, os ativistas propõem outro termo – Kali Trás (Medo Negro), que muitos consideram um tanto exagerado.

Bersa Bibaxtale (Anos Desafortunados) tem aparecido em alguns textos aqui e ali como alternativa. Finalmente, empréstimos linguísticos como Holokosto ou Holokausto também vem sendo ocasionalmente usados em romani. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

OS SINTI


Homens sinté com suas tradicionais tatuagens.

SINTI

Os rhomá do grupo genericamente denominado Sinti provém principalmente da Europa Central, sobretudo da Alemanha, França e Itália, mas também de países dos Bálcãs e, em menor proporção, do Leste Europeu. Os sinti, ou sinté, originaram-se do grupo que, uma vez na Europa, partiu da Grécia rumo ao oeste, atravessando a península balcânica, onde absorveu múltiplas influências, inclusive linguísticas.

Falam o sinti-manush, por vezes também referido como sintenghero tschib (língua sinti) ou sintitikes, uma variedade dialetal do romani com fortes influências da língua alemã. Manush, aliás, é a forma como se autodenominam e são conhecidos os sinti da França. Ao contrário do que já li em certos sites por aí, a palavra “manush” não é nome de nenhuma espécie de cargo religioso, coisa que, diga-se de passagem, inexiste na cultura romani, mas uma palavra que, de maneira análoga ao substantivo “people”, do inglês, significa tão somente “povo” ou “pessoas”.

A origem e o significado da palavra “sinti”, de contrapartida, são incertos. Imagina-se que o termo tenha sido adotado no século XVIII e há quem defenda que ele alude a uma ligação ancestral com o povo sindhi, uma etnia que vive numa província chamada Sindh, no sudoeste do Paquistão. No entanto, não há nenhuma prova que corrobore essa hipótese. Para outros, o termo deriva de uma antiga palavra do dialeto sinti, cuja forma e significado originais perderam-se no tempo.          

Assim como os rhomá do grupo Rom, os sinti também adotam profissões tradicionais, passadas de geração em geração, tais como ferreiro, joalheiro, músico, criador e comerciante de cavalos, etc. A diferença é que os sinti não se dividem em clãs por profissão, como acontece com os Rom devido ao tempo em que estiveram escravizados na Moldávia e na Valáquia. Em uma mesma kumpania (comunidade) sinti pode haver, e invariavelmente há, indivíduos com as mais variadas profissões. Os sinti, assim como os calé, subdividem-se apenas por região de procedência, as nacionalidades, adotando nomes diferentes em cada canto aonde foram e escolheram viver.

Eles teriam chegado à Áustria e à Alemanha no final do século XV, dividindo-se, num primeiro momento, em dois grupos – Estraxarja e Eftavagarja. O Estraxarja originou-se dos que chegaram à Áustria, espalhando-se, posteriormente, pela Itália, Croácia, Eslovênia, Hungria, Romênia, República Tcheca e Eslováquia, assumindo denominações diferentes em cada um desses lugares. O Eftavagarja, por sua vez, originou-se dos que chegaram à Alemanha, espalhando-se, posteriormente, pela França, Espanha, Portugal e, finalmente, Brasil.

É comum ouvirmos dizer que os Sinti são mais suscetíveis à assimilação cultural, tendendo a abandonar mais rapidamente o nomadismo e até mesmo a ocultar as próprias origens em países fora da Europa, assumindo a condição de cripto-ciganos (ciganos que escondem que são ciganos). Não se pode negar que hoje a imensa maioria dos Sinti são sedentários e vivem fora de grandes comunidades, todavia esse tipo de afirmação não é verdadeira para nenhum grupo romani em especial. A velocidade ou “disposição” com a qual rhomá dos mais variados grupos se deixam assimilar pelo mundo gadjé (não-cigano) está diretamente ligada às condições sócio-econômicas a que estiveram submetidos em seus países de origem, bem como ao nível de sucesso das inúmeras políticas anticiganas, aplicadas nos mais diversos países no intuito de promover a dissolução das comunidades rhomá.

É preciso observar que para comunidades escravizadas, fortalecer a união em torno de laços étnico-culturais comuns é uma estratégia de sobrevivência. Fenômeno semelhante aconteceu com a escravidão dos negros no Brasil. Já para comunidades perseguidas pela sombra de um estigma social, a coisa pode funcionar no sentido inverso. Livrar-se do estigma pode mesmo se tornar uma meta. Nesse sentido, a imigração para as Américas, uma terra de pessoas naturalmente miscigenadas, surgiu, para muitas famílias Sinti, como a fuga perfeita.


No Brasil, a chegada dos Sinti coincidiu com os diversos períodos migratórios ao longo do século XIX e início do século XX. Misturados às massas de franceses, italianos e alemães, eles chegaram ao país para ajudar a colonizar áreas rurais distantes e, principalmente, para substituir a mão de obra escrava nas lavouras de café. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Veja X "Questão Cigana": Ignorância ou Perversidade?



Depois de quase uma semana, finalmente li a famigerada matéria da Veja sobre a “questão cigana” na Europa.

Depois de fechar a revista, precisei de um tempo para entender – acreditar, aceitar ou coisa que o valha – o que tinha acabado de ler. Passados mais ou menos vinte minutos, a primeira coisa que me veio à cabeça não teve exatamente a ver com o conteúdo da matéria e foi: “bem, se restava alguma dúvida de que essa era uma revista reacionária e simpática aos ideais de extrema-direita, agora não resta mais”.

Depois desse primeiro pensamento, fui acometido por uma espécie de tristeza... Não, acho que estava mais para um pesar. E foi analisando esse pesar que consegui encontrar algumas palavras para dizer acerca desse assunto.

Estou profundamente consternado. O que a Veja fez foi um ato de extrema crueldade. Além de cruel, também podemos dizer que foi um ato leviano e irresponsável. Cruel, porque trabalha com fatos, com coisas que não podem ser negadas, mas parte destes fatos para uma generalização assassina (desculpem, não há palavra melhor) e extremamente prejudicial. Leviana, porque leva o leitor a pensar que o crime e a violência são características naturais dos indivíduos de etnia romani. Irresponsável, porque ignora que o crime termina sendo a via de sobrevivência das populações extremamente marginalizadas, e, ao ignorar este fato, insufla o preconceito naqueles que desconhecem essa realidade.

Ora, quem me conhece, apenas um pouco, sabe que não sou nenhum partidário ingênuo de vitimizações. Muito pelo contrário. Acredito piamente na responsabilidade individual. Mas nós estamos falando de estigmas sociais atrozes e de generalizações perversas. É claro que a maior parte dos crimes de furto e roubo são praticados por ciganos, na Europa. Da mesma forma, a maior parte dos crimes de furto e roubo são praticados por negros no Brasil.

Os negros... Sempre que preciso traçar um paralelo cultural com os ciganos, escolho os judeus. Mas para traçar um paralelo social, os negros são o melhor exemplo. Não resta dúvidas: os ciganos são para a Europa o que os negros foram – e em certa medida continuam sendo – para o Brasil. Ainda que por processos históricos distintos, os dois grupos estão regidos pelas mesmas reações de causa e efeito: ambos foram submetidos a um processo de marginalização extrema, que por sua vez resultou numa população profundamente estigmatizada. Como acontece com os negros no Brasil, a maior parte dos indivíduos romanis da Europa são pessoas que vivem suas vidas de maneira honesta, ainda que, para isso, enfrentando muitas dificuldades. Mas todos acabam levando a mesma pecha de delinqüentes por natureza, bandalheiros, assassinos e ladrões.

A reportagem da Veja deixa transparecer uma abordagem xenofóbica e preconceituosa, que, para além de apenas ignorar o impasse social que, sem dúvida, é um fator determinante nas altas estatísticas de ciganos envolvidos em atividades criminosas, deixa implícita a ideia de que a condição criminosa é determinada pela origem étnica. Ou seja, são criminosos porque são ciganos. E ninguém os quer como vizinhos, ponto final.

Isso, novamente, não é muito diferente do que acontece com os negros no Brasil. Lembro de já ter ouvido máximas assustadoramente racistas, e de pessoas que se julgavam “boas cristãs”. Coisas como: “preto quando não caga na entrada, caga na saída”. Ou então coisa pior, como: “preto já nasce musculoso que é pra conseguir correr mais rápido da polícia”. E coisas muito semelhantes a essas estão sendo ditas na Europa sobre os ciganos... E são coisas desse tipo que a Veja, com o desserviço de sua reportagem, está disseminando na mente dos leitores brasileiros.

O título da reportagem reproduz uma máxima dirigida aos defensores dos ciganos e já não deixa dúvidas: “você iria querê-los como seus vizinhos?”. Ora, esse é justamente o tipo de abordagem que, além de não ajudar, acaba piorando a situação. Porque de um lado estimula o preconceito. De outro fomenta a revolta. Os ciganos, outra vez como os negros, vão sentindo-se cada vez mais excluídos, cada vez mais a parte da sociedade. E justamente por causa disso, vão se sentindo cada vez mais revoltados, cada vez menos dispostos a integrar-se e cada vez mais dispostos a boicotar o mundo gadjé.

Eu penso que é uma benção termos, hoje, indivíduos de origem romani que possuem formação para interagir com o mundo não-cigano. Porque é através de nós que o conhecimento desse tipo de coisa chega aos nossos, não passa ao largo. E, de onde vejo, é nossa obrigação usarmos do mecanismo democrático para dar voz ao nosso povo, mostrar que os ciganos não são, como muitos pensam, nômades ignorantes sem qualquer acesso à informação. Façamos, pois, valer os princípios constitucionais que execram o preconceito e estabelecem o racismo como crime imprescritível e inafiançável (CF/1988. Art. 5◦, XLII).

Ao menos por hora, já seria consideravelmente significativo, e bastante incômodo para a Veja, se todos os romá com acesso à internet, bem como todos os simpatizantes do povo Rom, pudessem assinar a seguinte petição:



E que Deula nos proteja da perversidade dos ignorantes... Porque do jeito que a coisa vai, só com muita proteção divina mesmo!

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Considerações sobre o "etnocídio" cigano.

Crianças ciganas em comunidade na Romênia.

Bem, amigos, preparem-se que lá vem livro! (risos) Agradeço desde já aos que tiverem coragem e disposição para ler até o final, ok?

Estou lendo um livro muito bom sobre ciganos, que reproduz, porém, uma maneira de pensar muito própria da década de 70 (década em que foi publicado o livro que estou lendo) e que ainda encontra ecos nos dias de hoje. Transcrevo um trecho, abaixo, que sintetiza bem a posição defendida pelo autor:

“Os ciganos são como os Peles-Vermelhas, os Bascos, os Mongóis, e os Judeus, um dos grupos humanos mais misteriosos e, como tal mais perseguidos. São também alvo do maior 'etnocídio pela absorção' dos últimos tempos, somente comparável ao que foi (e continua a ser) levado a cabo contra os Peles-Vermelhas. Essa tentativa de absorção não é, afinal, mais que um entre os múltiplos signos que nos avisam da aproximação do 'fim dos tempos' ― do 'óbito' da espiritualidade, do começo de uma verdadeira 'ditadura da História', com todas as conotações geo-políticas e espaço-vitais que tal tempo disfarça ― do término da Era de Kali, a da Dissolução. O verdadeiro cigano, o nómada, tende a desaparecer, e com ele toda a Tradição, todo um povo que sempre recusou a 'identidade cultural' tipo Nações Unidas que, hoje, lhe pretendem impor. Este livro é o apelo do autor a todos os Homens, entendendo por este termo todos aqueles que não querem deixar-se destruir ― e aos Ciganos que querem manter-se fiéis à sua Tradição.” (O Testamento Mágico dos Ciganos, contracapa)

No geral, o livro é, como já disse, muito bom, mas eu gostaria de chamar a atenção para esse entendimento particular de etnocídio que ele nos apresenta. Em outro trecho do livro, o autor diz: “[...] E convém que façamos aqui uma distinção, que deverá ficar bem nítida, entre este verdadeiro cigano e a grande maioria dos ciganos actuais, ou seja, entre o cigano tradicional e o moderno cigano 'progressista'.” (p. 11) Ou seja, para o autor, verdadeiro cigano é aquele das antigas caravanas, nômade por excelência, alvo de perseguições cruéis, um pária social. E há um enobrecimento nítido dessa condição, que fica ainda mais claro quando, para o autor, o cigano “assimilado”, sedentário, portador de direitos humanos declarados pela ONU, deixa de ser um “verdadeiro cigano”.

Acho que cabe aqui uma reflexão. Aliás, algumas reflexões. A primeira delas: o que faz um cigano “mais” cigano ou “menos”cigano? Será que algum critério pode ser estabelecido de maneira absoluta a este respeito? Eu acho que não. Ser cigano é, até onde eu compreendo, pertencer a um grupo étnico, a uma linhagem que passa por descendência e hereditariedade, não uma condição assumida, que paira num céu de abstração e pode ser arrematada por qualquer pessoa, a qualquer tempo. Para ficar mais claro, não consigo ver um cigano deixando de ser cigano em qualquer circunstância. Pois se adotarmos o paradigma inverso, por exemplo, só poderemos considerar cigano aquele que comer sarmá todo dia! Comeu sushi no fim de semana, já era!

Outro ponto, creio, bastante importante, é a concepção de liberdade que normalmente o gadjô tem. Para os gadjé, o cigano é uma criatura completamente livre porque está fora do sistema social em que a comunidade gadjikane (não-cigana) como um todo se encontra inserida. Mas, ao pensar assim, ele se esquece que essa é uma liberdade relativa. Se de um lado o cigano está fora de um contexto sócio-cultural gadjô, de outro ele está absolutamente imerso em um contexto sócio-cultural romani, ainda mais rígido e, muitas vezes, mais opressor que o não-cigano. Desse modo, essa coisa, muito comum no discurso dos admiradores dos ciganos, de família, fraternidade, etc., é linda, realmente, mas pode ser muito sufocante também. Uma espécie de prisão que os não-ciganos há muito esqueceram como é, pois sua cultura mudou.

É claro que não estou querendo sentar o pau na minha própria gente aqui. Não é isso. Estou apenas oferecendo um outro olhar. Estou tentando mostrar que, como diz o velho jargão, a grama do vizinho parece sempre mais verde do que é.

E como último ponto, gostaria de voltar ao que disse mais em cima, quando falei que a cultura gadjikane mudou.O cigano é um povo complicado. Complicado porque sofre de um grave problema de identidade. É como se a identidade do cigano estivesse na cultura, em costumes que, uma vez perdidos, levam junto a própria "ciganidade" do indivíduo. O problema desse tipo de compreensão é que a cultura, por ser uma coisa viva, muda, naturalmente. Não é uma coisa inerte, estática. E muitos ciganos acabam num torturante processo de luta contra o ciclo natural das coisas, tentando manter a tradição intacta, intocada pela passagem do tempo e das gerações. 

Cabe aqui outra pergunta: o quanto do que julgamos "tradição cigana" é realmente cigano? Pra ficar melhor ainda, o quanto do que pensamos ser uma tradição "tão nossa" não foi resultado de trocas e empréstimos de culturas não ciganas em tempos passados? Só para citar um exemplo bastante famoso, as slavas e as pomanas (rito fúnebre) encontram origem numa cultura não-cigana, os antigos eslavos, com pouquíssimas diferenças do que hoje se apresenta como tradição romani autêntica!

Não sou, nem quero ser o dono da verdade, mas algo que aprendi com as ciências humanas foi que seu maior legado para a humanidade está justamente na possibilidade de ver uma mesma coisa sob várias e diferentes perspectivas. E esta é a perspectiva que eu, humildemente, proponho. Ora, o autor traça uma comparação entre ciganos e judeus. Pois os judeus são um exemplo perfeito de povo que soube se unir e penetrar na sociedade gadjikane sem perder as raízes.

Esse é um questionamento importante: será que no mundo de hoje, quando a humanidade já passou a marca dos 7 bilhões de indivíduos, existe espaço para um povo sem lugar nenhum, que se coloca à margem de todos os lugares? Um povo que nasce numa terra e passa a vida toda se considerando estrangeiro na própria terra em que nasceu? Um povo que se condena a não ter os mesmos benefícios que esta terra oferece para todos os seus filhos? Será que há sabedoria nisso?

Se o lado ruim da globalização é o risco (real) de que aconteça uma homogeneização generalizada dos povos, o lado bom (que também existe) me parece ser proporcionar a povos distintos algo de comum em uma convivência pacífica compartilhada. E eu acho, só acho, que nesse aspecto nós, ciganos, podemos perfeitamente dividir o mundo com os gadjé, aceitar as suas leis e a sua estrutura de base, já que nunca tivemos – e nem quisemos ter – um país para fazer do nosso jeito, mas, a exemplo dos judeus, nos manter unidos em torno de nossa própria identidade cultural, com tudo o que ela representa. Buscar resgatar a nossa história, aprendendo a valorizá-la e ensinando isso aos nossos jovens, sem, contudo, deixar de perceber que a cultura muda, isso é inevitável, e que os jovens têm o direito de experimentar a vida ao seu próprio modo. 

Afinal, não há o que temer. Se a árvore for forte, o fruto não cairá longe do pé.