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domingo, 30 de julho de 2017

HINO A PROMETHEU



*Com fumigação de funcho.

Prometheu, benfazejo titã, o rebelde divino; visionário de misteriosas veredas, desafiador que jamais se conforma; tu, que ousaste se opôr à onipotência de Zeus Soberano e assim se tornou a Sua justa medida; tu, que pelo teu ato de suprema desobediência, uniu outra vez o Céu e a Terra, há muito separados pelo Tempo, no âmago dos homens mortais. 

Nós te reverenciamos, Sagrada Consciência, Grande Ancestral, que pelo doloroso sacrifício fez de nós faíscas efêmeras no fogo eterno dos Deuses, e, antes de nos perder ou salvar, deu-nos o presente mais valioso - arbítrio sobre o nosso próprio caminho.

Seja sempre bendito, virtuoso amigo e benfeitor da humanidade. Propicia estes ritos, infunde em nossos espíritos a tua ousadia, abençoa-nos com boa saúde e a clareza de mente necessária para encontrar e trilhar caminhos de realização e felicidade. 


terça-feira, 28 de março de 2017

AFRODITE



Todas as vezes em que escutamos falar de Afrodite, inevitavelmente nos vêm a cabeça associações com misteriosos perfumes, tecidos diáfanos, sofisticados leitos, e um milhão de detalhes típicos dos ambientes da sedução. Quase nunca nos vem à mente qualquer imagem ligada à cozinha, a tal ponto que se chega a dizer que ela não pertence ao universo de Afrodite!

Durante muito tempo, a cozinha esteve associada à mulheres que não possuem as manhas da sedução e que transitam na esfera das divindades maternais, redondas e desprovidas de atrativos físicos : tais como Deméter e Héstia.

Eu mesma, durante um bom tempo de minha vida, acreditei que a cozinha não era o lugar de Afrodite e vesti outras deusas com trajes toscos, aventais sujos de ovos e aroma de cebola como perfume. Como um ser apático e desprovido de paixões, deixei que meu corpo crescesse como um bolo cheio de fermento, acreditando que estava em paz com Deméter e Héstia. Afinal, os livros me diziam que elas eram exatamente como eu as havia vestido : deusas "do lar" ! Ou seja, mulheres cujo desejo mais profundo era apenas a satisfação da família e o reconhecimento do marido e dos filhos : a representação exata daquilo que se costuma chamar por "dona de casa".

Assim, por uma boa dezena de anos, enterrei-me dentro da cozinha como a mais genuína espécime "do lar". Adquiri um bom punhado de quilos, deformei meu corpo e, como resultado desta nefasta metamorfose, passei a cobrar dos outros habitantes da casa um comportamento que eu mesma, em sã consciência, não saberia desempenhar. Aos poucos fui me transformando numa mulher amarga, sem qualquer otimismo, achando que a vida se resumia naquele pequeno mundo que eu havia criado. Um mundo amorfo, repleto de obrigações neuróticas, sem nenhum projeto de auto-satisfação e excludente de todo prazer. Claro que vez por outra eu me enganava, atribuindo ao prazer o atributo do sacrifício. Fingia que era feliz por estar desempenhando tão bem o papel da grande mártir da família!

Dentro de mim, uma semente germinava sem que eu me desse conta. Uma semente colocada por Héstia e Deméter, as deusas que eu pensava estar honrando. Estas, preocupadas com o mal entendido que eu criei e já exaustas de enviar mensagens que eu teimava em não querer compreender, optaram por plantar, em mim, uma deusa que eu havia renegado há muito tempo : Afrodite, a Senhora que gerencia o pulsar do feminino!

Ao longo do período em que retive a pequena semente germinando, estranhos fatos aconteceram. Fui irresistivelmente atraída para o universo estético de Afrodite. Passava horas admirando uma roupa na vitrine, e, quando inalava algum perfume, elétricos arrepios espalhavam-se por meu corpo. Meus sonhos me traziam de volta aquela Márcia que havia sido um dia...Até as antigas fotos saiam de seus esconderijos e se revelavam outra vez aos meus olhos!

Preocupada com esse repentino pipocar de inexplicáveis acontecimentos, recorri mais uma vez à Lua: divina senhora que orienta as mulheres em toda e qualquer aflição. Me preparei devidamente para um encontro íntimo com a lua, seguindo todos os ensinamentos de minha avó.

Preparei um banho de lírios brancos, acendi quatro velas prateadas em meu altar e queimei incenso de rosas brancas por toda a casa. Assim, depois de ter tomado o banho e deixando-me secar sem o auxílio da toalha, finalizei os preparativos : ungindo óleo de datura na região dos pulsos, nuca, atrás dos joelhos, virilha e umbigo. Depois, deitei-me na cama e chamei pela Senhora.

Não passaram cinco minutos, quando percebi uma presença dentro do quarto. Habituada com as inúmeras interrupções, a que toda dona de casa está sujeita, pensei que Daniel, meu filho, tivesse entrado no quarto para me pedir qualquer coisa. Preparei-me para uma possível pausa no meu ritual e abri os olhos, pronta para resolver mais um problema. No instante em que abri os olhos, ouvi nitidamente o som de alguns risos. Nesse instante, me dei conta de que não era meu filho que estava no quarto!

Mesmo acostumada ao estreito contato com seres de outras dimensões, minha primeira reação é sempre de medo. Começo a sentir meus joelhos bambos e a voz desaparece num piscar de olhos. Um frio intenso de mim se apodera e fico por algum tempo tremendo e batendo o queixo. Depois, pouco a pouco, vou me recuperando e "desenrolo uma prosa", como bem dizia minha avó.

Desta vez não foi diferente. Passei por todos os estágios do medo, e, após ter cumprido este rosário de sintomas, procurei saber quem se encontrava no quarto. Abri bem olhos e me deparei com quatro mulheres. Todas bonitas e incrivelmente serenas.

A primeira possuía a beleza selvagem das mulheres quando estão apaixonadas. A segunda, uma beleza mais tranqüila, como aquela que as mulheres mostram quando tomam os rebentos nos braços pela primeira vez. A terceira, exibia a beleza radiante das mulheres quando colocam na mesa um alimento recém saído do fogão. E, por último, a quarta, aquela que trazia em si todos os atributos das outras três mulheres.

Ainda tonta com aquelas presenças, fui subitamente levada a sair deste estado, justamente no momento em que a primeira mulher de mim se aproximou e disse : " Por onde tens andado? Que caminhos tortuosos te fizeram de mim se esquecer? Eu, Afrodite, aquela que modelou teus desejos!".
Após ter pronunciado tais palavras, Afrodite desapareceu, envolta numa intensa fumaça rosada. No quarto, só ficaram as outras mulheres. Um silêncio profundo perdurou por um bom tempo, até que as três mulheres me conduziram ao centro do quarto e me rodearam. Eu não sabia o que fazer, mas percebia que seria levada à realização de um ritual sagrado. Por isso, purifiquei meu corpo, mentalizando um enorme ovo de prata, que despejava uma chuva de partículas azuis sobre minha cabeça.

Quando já me encontrava devidamente purificada, a quarta mulher, aquela que possuía a beleza das outras três, disse-me que havia gravado nas estrelas um outro caminho para mim, e que eu não soube identificar seus sinais, tomando assim uma outra direção. Após dizer isto, chamou com um delicado gesto a segunda mulher. Esta, ao mirar meu rosto, trouxe-me a lembrança de Daniel aninhado, pela primeira vez, em meus braços. Percebendo minha profunda emoção, a mulher me disse estas palavras: " Eu senti a mesma coisa quando Perséfone me veio aos braços pela primeira vez!".

No momento em que escutei suas palavras, me dei conta que Deméter estava à minha frente. Mas... não era possível! Não era a representação feminina que eu atribuía à Deméter! Sua beleza nada tinha a ver com o "avental todo sujo de ovo", os olhos irritados pelas cebolas e a lamúria solitária das mães! À minha frente, encontrava-se uma mulher centrada e em perfeita harmonia com a sua condição.

Percebendo meu espanto, Deméter sorriu e me disse : " Eu já estou habituada com a leitura equivocada da minha história. Você foi mais uma a interpretar de maneira errada. Na história não está dito que eu sou descabelada, negligente com meu próprio corpo e tampouco uma mãe possessiva e neurótica! Você leu a história e adequou-a aos seus próprios problemas. Criou uma outra Deméter e passou a acreditar que ela era eu.".

Deméter estava com a razão. Não havia nada na história que afirmasse que ela era desprovida de atrativos, que era uma mulher amargurada, chantagista e fechada em seu próprio sofrimento. Decididamente, eu havia interpretado mal a história e criado um novo arquétipo!

Ciente daquele momento em que me entregava à confirmação de meu engano, a outra mulher se aproximou e disse : " Quem foi que lhe falou que sou apenas uma encarregada do almoxarifado?". Era Héstia, a deusa que eu pensava somente gerir as provisões da casa.

A constatação do terrível engano que cometi, levou-me à uma tristeza insuportável. Deparei-me com os anos que desperdicei, representando um personagem que não tinha a menor correspondência com as divindades que eu pensava estar honrando. Constatei o péssimo estado em que me encontrava : fechada para os meus próprios desejos e necessidades de mulher. Descobri que estava assassinando minha condição feminina, tornando-me um ser amargo e sofredor. Vi, estampado em minha face, o futuro que me aguardava : eu seria uma mulher que faria inumeráveis cobranças e exibiria o meu sofrimento sem o menor pudor, esperando que o outro comigo resgatasse uma dívida que eu lhe havia imposto.

Mirei meu corpo e nele vi as mutilações que se acumularam ao longo de tanto tempo. Cicatrizes acolchoadas por uma gordura doentia e patológica. Em meu corpo não mais havia a presença da divindade, nele não existia o contorno sutil da Grande Mãe, e agora eu era apenas uma massa de carne. Nada mais!

Sabedoras do meu desespero, Deméter e Héstia revelaram-me uma maneira de reverter a maldição, aquela que eu mesma me lançara. Eu teria que chamar por Afrodite, pois à ela pertenciam as palavras que reverteriam o tal malefício.

Seguindo o conselho das duas, concentrei meu coração na busca de Afrodite e roguei para que ele a trouxesse até mim. Com a boa vontade própria dos corações, ele saiu prontamente em busca da Deusa, deixando-me no sono que antecede os nascimentos. Não sei, com certeza, quanto tempo se passou até o momento em que fui despertada por um beijo de Afrodite. A Deusa estava outra vez no quarto, disposta a me dar mais uma chance. Ao seu lado, estavam Deméter, Héstia e a quarta mulher, que até agora eu não tinha a mínima idéia de quem era.

Falavam, entre si, uma língua desconhecida que imaginei ser o grego arcaico. Por algum tempo fiquei excluída do grupo, impossibilitada pela língua, até que elas se deram conta do que se passava. Héstia, de todas a mais polida, desculpou-se em nome do grupo. Então, restabelecida a comunicação, Afrodite pediu-me para que eu me despisse.

O pedido da deusa deixou-me apavorada. Como eu poderia expor meu corpo mutilado para mulheres tão belas? Como poderia expor a montanha de gordura que erigi no decorrer dos anos? Não! Decididamente aquele era um pedido que eu não podia satisfazer!

Notando o meu constrangimento, Afrodite falou-me para que eu não tivesse vergonha, pois meu corpo continuava sendo um templo e que ele ainda guardava todas as tatuagens sagradas. Só que eu me esquecera de honrá-lo e nele já não mais me recolhia para extrair equilíbrio. No entanto, se eu não me apavorasse, já que sempre existe um caminho de retorno, este templo estaria aberto e ávido por me receber.

Tranquilizada pelas sábias palavras de Afrodite, despi-me sem nenhum constrangimento. Naquele instante, eu já não sentia vergonha do meu corpo, pois sabia que tomara o caminho de volta ao meu espaço sagrado.

Já despida, Afrodite e as outras rodearam-me, entoando antigos cantos. À medida em que cantavam, espalhou-se um delicioso aroma de rosas por todo ambiente. Senti uma tonteira sutil e deixei-me com a sensação de que me transformara numa pluma, o que me deu a impressão de que eu poderia alçar voo, se assim o quisesse.

Algum tempo transcorreu, sem que me desse conta do quanto havia passado. Até que fui retirada deste entorpecimento, sentindo um forte formigamento no corpo, como se minúsculas descargas elétricas despejassem energia sobre a camada espessa das gorduras.

Enquanto sentia meu corpo bombardeado por tal acúmulo de energia, fui tomada por um jato de resoluções que inundavam o meu cérebro insistentemente. Decidi, então, que não mais abusaria do açúcar, daria um tempo nos carbohidratos e dedicaria uma parte do dia para movimentar o meu corpo, tratando-o corretamente. Esqueceria, por uns tempos, dos refrigerantes e me dedicaria aos sucos naturais.

Afrodite, como se estivesse lendo meus pensamentos, retribuiu-me com um riso franco e malicioso. Por fim, disse-me ao pé do ouvido: "Estarei ao seu lado de hoje em diante.".
Depois de se comprometer com minha jornada futura, Afrodite introduziu a quarta mulher, apresentando-a da seguinte maneira: "Esta é a Lua, a Deusa que é feita de uma célula de cada mulher. Ouça com atenção tudo aquilo que ela lhe falar, pois sua voz representa a voz de todas nós. Seu canto é a melodia de todas as mulheres quando fazem amor, quando limpam a casa, quando criam os filhos, quando trabalham, quando sonham, quando brigam, quando blasfemam, quando perdoam e quando enfeitiçam com suas obras. Nunca se esqueça de suas palavras e guarde-as bem guardadas no coração.".

A Lua, que até ali permanecera calada, aproximou-se com passos de bailarina e, com voz de oceano, me disse as seguintes palavras:

Eu sou Senhora do sangue sagrado
a meretriz dos sucos vaginais.
Sou aquela que encarna o pecado
e habita as grotas infernais.
Fui eu que te dei o desejo
que desenhei no teu corpo
todos os riscos do sexo.
Fui eu que te embalei nos braços
e disse a todas que eras mulher.
Sou eu que ainda te guio
nos descaminhos que inventaste.
Sou eu que sustento as violações
de um corpo que mutilaste.
Tu, que és parte de mim mesma
esqueceste o lugar que te gerou.
Tomaste um rumo avesso e contrário
e renegaste quem te criou.
Mas tu és lua, mulher e loba
e serás assim até o instante final.
Não serás ferida,
porque és cura.
Não serás dor,
porque és prazer.
Não serás culpa,
porque és vida.
Não serás certeza,
porque és abismo!

Quando a última palavra do poema foi enunciada, senti o chão se abrir aos meus pés e numa fração ínfima de tempo me vi engolida por uma fenda. Estranhamente não senti medo e deixei-me levar como uma pena é levada pelo vento.

À medida em que ia me precipitando no abismo, vi passar, à minha frente, os últimos anos de minha vida. Me vi redonda e pesada, grávida de Daniel e amedrontada pelas circunstâncias. Experimentei os sabores da geladeira noturna e afoguei minhas preocupações em bons nacos de bolo. Depois, me vi na gélida sala da maternidade e tremi de frio e chamei pelo calor das mulheres que não estavam presentes. Chamei por minha avó, parteira desde os quinze anos... e não fui ouvida. Daniel nasceu cercado por médicos, num dia em que os homens, aflitos, aprimoram sua condição masculina: o dia da decisão da Copa do Mundo!

Lembrei-me do meu primeiro pedido depois de parir: um enorme sanduíche de queijo e presunto! No instante em que me vi outra vez vivenciando as mordidas que dei no sanduíche, percebi o que a comida havia representado por todos aqueles anos. Eu não queria um parto assistido e realizado por homens! Como feiticeira, eu sabia muito bem que este momento pertence somente às mulheres e só elas o podem compartilhar. Como feiticeira, eu sabia perfeitamente que minha energia seria afetada, se me permitisse ser violada por outras mãos que não o de outras mulheres. Compreendi, então, que a fome absurda que me corroeu desde o período da gravidez, nada mais era do que uma forma do meu corpo expressar o seu inconformismo. Assim, toda vez que comia, era como se eu dissesse que não estava centrada e feliz!

Quando entendi esta lição, me vi outra vez em meu quarto, no solo. As quatro mulheres sorriam entre si, como se estivessem cientes de tudo que se passara...

Afrodite, a deusa que reneguei por tanto tempo, veio ao meu encontro, dizendo que o feitiço estava desfeito e que de agora em diante eu devia voltar ao meu verdadeiro caminho. Tudo dependeria de mim mesma e daquilo que eu construísse. Elas estariam todas ao meu lado, mas não poderiam interferir em meus atos. Acabando de dizer tudo isso, deu-me um longo abraço e se retirou do quarto, seguida pelas outras.

No dia seguinte, ao acordar, tomei a primeira providência. Fui ao banheiro e, antes de lavar o rosto, subi na balança que tanto evitava. Anotei o peso e fui para o café. Não o adocei com açúcar e dispensei o pão habitual. Retomei os velhos hábitos da adolescência e saí para uma longa volta de bicicleta.

Como as deusas estavam ao meu lado, pude sentir que mexiam os pauzinhos. Logo encontrei Paula, uma amiga, dona de um restaurante macrobiótico. Conversamos por um longo tempo sobre alimentação, obesidade e a condição feminina. Ao fim da conversa, eu já havia me decidido: adotaria a macrobiótica como primeiro passo para a purificação de meu corpo.

Desde então encontro-me outra vez no caminho. Nunca mais transferi meus sofrimentos para a comida. Redescobri o encanto de seduzir e ser bela para mim mesma.


Reencontrei o equilíbrio perdido e hoje posso mesmo dizer que estou muito feliz! Vez por outra, quando me encontro na frente do espelho, ouço a risada de Afrodite. E parece que a escuto, dizendo, maliciosa: "Segue em frente, menina!".

(Texto de Márcia Frazão, extraído do livro: A Panela de Afrodite)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

ARETÉ - VIRTUDE, COMPETITIVIDADE E EXCELÊNCIA


Aracne era uma talentosa tecelã da Lídia. Contam os antigos versos que os pastores deixavam seus rebanhos, os atletas abandonavam os ginásios e até as ninfas saíam dos rios, bosques e fontes para ver o seu trabalho. Tamanha admiração pública acentuou a vaidade de Aracne, ao ponto de ela começar a afirmar que suas mãos teciam melhor que as de Athená, deusa dos ofícios, patrona da tecelagem.

Desafiada, Athená assumiu a aparência de uma velha senhora e veio para a terra, onde disputou com Aracne em um desafio que se estendeu por muitos dias. No termo desses dias, estavam prontas duas maravilhosas tapeçarias nas quais não era possível encontrar nenhum defeito. No entanto, ao passo que Athená bordara as façanhas e conquistas dos Deuses, Aracne resolveu bordar suas vergonhas. Isto fez com que a tapeçaria de Athená, pela virtude da sua obra, fosse considerada superior. Os deuses nunca tiveram a pretensão de ser perfeitos, mas é virtuoso e benéfico lembrar de alguém mais pelos seus acertos do que pelos seus erros.

Aracne, muito vaidosa, não aceitou a derrota que lhe fora imposta. Desfazendo sua própria obra, enforcou-se com os fios que outrora havia usado para tecer. Athená, compadecida, socorreu-a antes do último suspiro, transformando Aracne no animal que hoje conhecemos como aranha, sempre empenhada numa obra de tecelagem sem defeitos, mas por quase todas as pessoas considerada desagradável, um símbolo de sujeiras e impureza.

Em outra ocasião, Mársias, que havia encontrado uma flauta que Athená havia criado e da qual se desfizera, tornou-se um músico tão perfeito que encantava os ouvidos de mortais e imortais. Envaidecido das próprias habilidades, ele ousou desafiar Apollo, deus patrono das artes, em cujo cortejo caminham as próprias musas, para um duelo em que o vencedor poderia fazer o que quisesse com o perdedor.

Mársias tocou linda e profundamente, mas Apollo, com sua lira dourada, era mesmo insuperável. Como resultado da peleja, Mársias, o perdedor, fora pendurado em uma árvore e esfolado vivo...
Apollo, sempre excelente, pode, contudo, ser bastante cruel... E foi a sua crueldade que o fez desafiar o próprio Eros, filho alado de Afrodite, fonte de todo sentimento. Um dia, enquanto praticava com seu arco prateado, o filho de Leto acertou o talo de uma maça em uma macieira que estava muito distante. Eros, que havia assistido a demonstração maravilhado, se empolgou. Colocando-se ao lado do Divino Flecheiro, disparou uma de suas setas e logrou acertar a mesma maçã antes que ela caísse ao chão.

Apollo não gostou. Disse ou Infante Divino: “Afasta-te e me deixa praticar em paz, que o arco não é brinquedo para as mãos de uma criança.” Eros, aborrecido, respondeu: “É certo que tuas flechas são infalíveis. As minhas, pois, também nunca erram o alvo.” E, dizendo isso, o deus do amor se afastou, sacando duas flechas de sua aljava – uma de ouro, que infundia o puro e verdadeiro amor, outra de chumbo, capaz de causar irreversível aversão. A seta dourada mirou no coração de Apollo. A cinzenta, saturnina, o da ninfa Dafne, que passeava ali por perto. Apollo, tomado de um amor irresistível, cortejou a ninfa que, tomada de aversão irresistível, fugiu dele até se transformar em um loureiro...

O que esses mitos ensinam? Muitas coisas... A linguagem metafórica e poética dos mitos é capaz de falar sobre muitas verdades em histórias simples como essas. Vejo muitas pessoas falando sobre a arrogância, algumas atribuindo-a aos próprios Deuses. Isso certamente é uma possibilidade. Para mim, no entanto, esses mitos falam sobre virtude (ἀρετή). A virtude, que, mais do que fazer o que faz com excelência, é capaz de, em última instância, reconhecer-se no outro.

Nenhuma dessas passagens, afinal, teria acontecido de maneira tão terrível se, pela medida da comparação, um personagem não tivesse se considerado melhor do que o outro. Para essa medida, os antigos helenos tinham um termo, o único ato humano realmente desprezado pelos Deuses – húbris. Húbris significa desmedida. Desmedida é colocar as coisas fora de seu lugar.


Muitas sociedades humanas, como a helena, foram, e são, extremamente competitivas. Mas a competitividade, em si, não é uma coisa ruim. A competitividade ruim, creio que todos conhecemos. A competitividade boa, com a qual devemos nos familiarizar, é aquela que, pelo exemplo da excelência do outro, nos leva a buscar a nossa própria. E excelências, uma vez excelentes, nunca se comparam na expectativa de estabelecer superioridade. Pelo contrário, no momento em que incorre neste vício, a desmedida, a excelência se torna menos excelente e tropeça na armadilha de Éris: a vaidade. 

sábado, 26 de novembro de 2016

A DEUSA HÉCATE



Deusa Lunar do conhecimento velado, das transições e das mudanças, com poder no Céu, na Terra, no Mar, e também no Hades; patrocinadora de riquezas, das honras, da vitória e das boas e rápidas viagens; protetora dos recém-nascidos, conselheira dos mortais, já que é a dona das estradas e das encruzilhadas duplas e triplas, e de todas as entradas (estes quatro pontos simbolizam o curso e as opções da vida humana); assistente de todos os decretos e de cada cerimônia de purificação.

De acordo com as diferentes versões mitológicas, a Deusa Hécate parece ter nascido:

1. Da Deusa Noite (Baquílides, fragmento 1Β, «Εκάτα δαϊδοφόρε, Νυκτός μεγαλοκόλπου θύγατερ» “Hécate, portadora do archote, filha da Noite de amplo seio”); 

2. Dos titãs Perses e Astéria (de acordo com: Teogonia, de Hesiodo, vv.409-411; Hino Homérico a Deméter; Pseudo-Apolodoro 1.8; Licofrão de Cálcis 1174; entre outros). Por isso é chamada Perseida, apesar de existir uma versão na qual se indica Zeus como seu pai; 

3. De Zeus e Astéria (nos informa Museu de Atenas, de acordo com o comentário de Apolônio de Rodes);

4. De Aristeu (Ferécides de Siro, de acordo com o comentário de Apolônio de Rodes);

5. Da deusa Deméter (comentário de Apolônio de Rodes 3.467);

6. Da deusa Leto (de acordo com Eurípides);

7. De Zeus e Feraia, filha de Éolo (que a abandonou em uma encruzilhada tripla, de acordo com o comentarista Teócrito), e por isso recebe o epíteto “Feraia”; 

8. De Zeus e Deméter – que inclusive ajudou a encontrar sua irmã Perséfone;

9. De Zeus e Hera;

10. Dos titãs Céos (ou Coio) e Febe, tendo como irmãs as deusas Leto e Astéria; 

11. Do Tártaro.

A soberania mitológica da deusa Perseida (Hécate) no Céu, na Terra e no Mar foi exercida desde a época dos titãs, muito antes da Titanomaquia, na qual o poder foi assumido pelos deuses vencedores. Zeus, na verdade, a honrou como sua própria filha por participar do conflito ao lado dos Deuses, e confirmou seus domínios pré-existentes. Ela, por sua vez, voltou a ajudar os deuses do Olimpo na Guerra contra os Gigantes (Gigantomaquia), na qual matou o Gigante Clício, batalhando ao lado de sua mãe, a Noite (Nykta). 

ETIMOLOGIA DO NOME

O nome da Deusa deriva do advérbio “ekas” «εκάς» que quer dizer longe, e do «εκάθεν» = remoto.  No dicionário Liddell & Scott, define-se como “Aquela que vai até o fim”, isto é, a que alcança os limites.

Uma etimologia possível do nome também é aquela que vem do «εκάτερος», que quer dizer cada um dos dois, não juntos, mas separados (que é o contrário de «αμφότεροι», que quer dizer ambos). Neste caso se destaca o duplo vínculo da Deusa com o mundo dos vivos e com o dos mortos.

O CARÁTER DA DEUSA

O grande número de nomes que derivam do nome de Hécate que encontramos na região de Cária, na Ásia Menor, (ex.: Hecateu – aquele que pertence à Hécate, Hekatomnus, etc.) nos mostra um caráter bem diferente e sem relação com os elementos obscuros que foram falsamente atribuídos à Deusa pelo ocultismo da Antiguidade Tardia.

Na região da Trácia, Ela foi honrada especificamente como o lado feminino do deus Hermes, protetor dos limiares, das portas das casas, da cidade e dos templos (os nomes Pileu e Propileu vêm da palavra Pyli = porta), das ruas e das encruzilhadas duplas e triplas (Hódios e Enódios também são outros nomes de Hermes), o qual, em alguns casos, se apresenta com três ou quatro cabeças (Três cabeças em referência à natureza ternária do logos filosófico; ou quatro cabeças em referência ao seu caráter polivalente – de acordo com Eustácio de Tessalônica, comentarista de Homero). 

Ela compartilhou da natureza de Hermes como condutor de almas (psychopompos), como também o poder dele nos quatro níveis (de acordo com Eustácio de Tessalônica, comentador de Homero: “Hermes Ctônio é Celestial, Μarítimo, Subterrestre e Condutor de Almas”).

Esta natureza hermética da Deusa foi adotada em várias regiões gregas, tendo absorvido, em muitas delas, características da deusa Ártemis ou da deusa Selene (como vemos em Ésquilo), ou ainda da deusa Nêmesis, com a qual tem, de fato, muitas semelhanças. Nos dois últimos casos, se adicionarmos o elemento supersticioso que havia nas regiões mais rústicas e as diferentes religiões que existiam no mundo helênico, a Deusa será associada à magia.

Em outros casos, a Deusa Hécate foi identificada com Deméter, Rhéa e Perséfone, e durante o período helenístico e romano de Creta foi identificada com Diktynna.  Depois do período clássico, a Deusa começou a ser representada como triforme, quer dizer, com três faces/rostos, acompanhando as representações do deus Hermes.  

Um culto sacrílego da Deusa é invocado durante a Antiguidade Tardia, vindo especialmente de feiticeiros orientais, necromantes e também de “teurgos” vulgares, como suposta divindade da magia e das artes necromânticas
(adivinhação por meio dos mortos/com invocação aos mortos), por causa do sincretismo com a deusa sumeriana Ereshkigal, que nós encontramos identificadas (Hécate-Ereshikgal) numa invocação em um papiro mágico do quarto século da nossa era.

No mesmo nível, mas com origem nas superstições populares e no folclore, vem a correlação Dela com o suposto fantasma “Empusa”, ou Lâmia ou Mormo («Έμπουσα» ή «Λάμια», ή «Μορμολύκειον»), ou também algumas referências ao seu nome em placas mágicas de imprecação. Não há, no entanto, nenhum registro acerca de personagens históricas que A adorassem como uma divindade obscura dos feiticeiros e das bruxas.

SANTUÁRIOS E OFERTAS

A origem de Seu culto é puramente helena e vem pelo menos de antes do século IX a.E.C., já que na Teogonia de Hesíodo (versos 416-420) nós podemos ler o seguinte: “ΚΑΙ ΓΑΡ ΝΥΝ, ΟΤΕ ΠΟΥ ΤΙΣ ΕΠΙΧΘΟΝΙΩΝ ΑΝΘΡΩΠΩΝ ΕΡΔΩΝ ΙΕΡΑ ΚΑΛΑ ΚΑΤΑ ΝΟΜΟΝ ΙΛΑΣΚΗΤΑΙ, ΚΙΚΛΗΣΚΕΙ ΕΚΑΤΗΝ. ΠΟΛΛΟΙ ΤΕ ΟΙ ΕΣΠΕΤΟ ΤΙΜΗ ΡΕΙΑ ΜΑΛ’, Ω ΠΡΟΦΡΩΝ ΓΕ ΘΕΑ ΥΠΟΔΕΞΕΤΑΙ ΕΥΧΑΣ ΚΑΙ ΤΕ ΟΙ ΟΛΒΟΝ ΟΠΑΖΕΙ, ΕΠΕΙ ΔΥΝΑΜΙΣ ΓΕ ΠΑΡΕΣΤΙΝ” (Hoje ainda, se algum homem sobre a terra com belos sacrifícios conforme os ritos propicia e invoca Hécate, muita honra o acompanha facilmente, a quem a Deusa propensa acolhe a prece; e torna-o opulento, porque ela tem força – tradução de J.A.A. Torrano em Teogonia: A Origem dos Deuses. Iluminuras, 2009.).   

Além disso, o autor William Berg “terminou” a questão da origem da Deusa em 1974, quando escreveu e apresentou o conhecido artigo “Hecate: Greek or Anatolian?” no periódico “Numen” (volume 21, fasc. 2, pp. 128-140).

Na Trácia, como dissemos anteriormente, simplesmente foram adicionados ao Seu culto alguns aspectos herméticos. O culto heleno a Hécate fortaleceu-se mais na região de Cária, absorvendo todos os cultos nativos relacionados a Ela, na época do rei Hecatomno (regência 391-377 – cujo nome se deriva do nome da Deusa e nos explica porque seu culto foi tão fortalecido), que foi sucedido pelo rei Mausolo (regência 377-351). Os mais importantes centros de adoração da deusa na região de Cária eram a pequena cidade de Lagina, da qual a deusa Hécate era padroeira e onde foi chamada “Salvadora, Máxima e Ilustríssima” e também na cidade vizinha de Lagina, Estratonicéia (que hoje é chamada de Eskihisar), que foi fundada pelo rei Antíoco I, o Salvador, na margem esquerda de um afluente do rio Meandros Marsias. O antigo nome de Estratonicéia era Idrias e, antes deste, Hecatésia (durante o reinado de Antonino Pio, os protetores da cidade eram a trindade Zeus Maior, Hécate Salvadora e Tyché [Sorte]).

A proeminente importância da Deusa na região da Cária durante os períodos helenístico e romano foi decisiva para levar muitas pessoas a crer que Seu culto tinha especificamente este local como berço. Houve também uma grande disseminação do culto de Hécate em diversos lugares da região da Frígia. O ponto de partida para todos eles, no entanto, são os períodos helenístico e romano.

Na ilha de Egina, esta Deusa tinha um templo muito importante. Pausânias o descreve em sua obra “Korinthiaka” da seguinte forma: “Hécate é a Deusa mais honrada entre os habitantes de Egina e uma vez por ano eles fazem uma cerimônia dedicada a ela, que, pelo que dizem, foi estabelecida por Orfeu, o trácio. Dentro do recinto existe um templo com o xoano [estátua de madeira dedicada a um Deus] que é obra de Miron, com um rosto e um corpo. Acho que Alcamenes foi o primeiro a esculpir três estátuas de Hécate unidas em uma, a qual os atenienses denominam Epipyrgidia [aquela que está entre as torres] e está instalada perto do templo de Athená Niké” (trecho 2.30.2).

Em Atenas, a Deusa tinha um templo no início do Caminho Sagrado [Iera Odos] e foi venerada em muitos cultos domésticos junto a Zeus, Héstia e Apolo. Neste culto doméstico, Hécate era provedora de prosperidade e boa sorte, sendo invocada sob o epíteto de Kallisti [A Melhor], e os habitantes faziam, uma vez por ano, uma grande festa com procissão e sacrifícios na região de Agra, em lembrança da vitória em Maratona. Se a nossa fonte não exagera, como observado por William Berg, existia na entrada da maioria das casas atenienses uma estátua da Deusa, que se chamava Hekataion ou Hekateion.
Nesta mesma época, outros importantes centros de culto da Deusa eram Esmirna, Halicarnasso, Heracléia do Latmos, Cnido, Trales, Argos (perto do Santuário dos Dióscuros, com uma estátua de mármore feita por Escopas e uma de bronze feita por Policleto), Bizâncio, Afrodísias (como Propylaia [protetora das entradas]), Rodes (também chamada de Propylaia, junto com Hermes Propylaios e Apolo Apotropaio [hediondo]), Cós, Epidauro, Andros, Titane de Sicião, Siracusa, Tasos (com estátuas e altares em três diferentes entradas da cidade), Selinunte (onde protegia a entrada do Santuário de Deméter Maloforos), Pireu, Cirene (onde Ela compartilhava seu templo com Hades e Perséfone) e, por fim, Samotrácia.

O objeto devocional mais antigo foi descoberto em Atenas e é uma pequena estatueta (eidolio) de terracota do século VI a.E.C., representando Hécate entronizada. Em muitas regiões havia o costume de oferecer, após a limpeza ritualística das casas, banquetes cerimoniais em honra à Deusa. Isto acontecia durante o período da noumênia (cerimônias feitas durante o primeiro dia da Lua Nova) em encruzilhadas de três vias (tríodes), com diversas comidas (como bolos de mel, ovos, peixes, etc.) os quais, naturalmente, eram consumidos pelos animais e pássaros noturnos (raramente, também, por pessoas atingidas pela pobreza, que esperavam por perto nestas ocasiões, o que era considerado um miasma [impuro]). Estas ofertas eram chamadas Hekataia ou Hekátea ou ainda Hekatísia, os Jantares de Hécate.

Um Templo da Deusa Hécate foi erguido no século V a.E.C. na entrada da cidade de Mileto, onde Ela era honrada por uma trupe musical especial e possuía dois altares (um do século VI, outro do século I a.E.C.) e seu culto estava associado ao do deus Apolo, em Dídimos, com uma procissão que começava em Mileto e terminava no santuário e oráculo dos Gêmeos. Nesta procissão havia dois objetos misteriosos, um dos quais consistia numa coroa que era lavada com vinho puro (sem adicionar água, coisa que se costumava fazer durante as festividades para que os presentes não ficassem bêbados) e depositada diante da estátua de Hécate, nas “portas da frente”, enquanto o outro objeto era encaminhado para o interior do templo de Apolo. O primeiro peã da procissão era dirigido à Deusa Hécate.

Os símbolos da Deusa são os dois archotes, o strophalos hecatino, a chave (que fecha as portas para os perigos e abre para as bênçãos) e o punhal. Seu animal sagrado
é o cão de guarda (como é também o da Protetora dos Partos, a deusa Ilithyia Genetyllida) e suas árvores sagradas são o carvalho, a aveleira, o álamo negro (cuja dupla cor das folhas simboliza o duplo vínculo da Deusa com o mundo dos vivos e com o dos mortos) e o cipreste.  As ofertas dedicadas a Ela são o mel, sua flor sagrada, a abrótea, e o acônito (wolfsbane). O animal que se sacrifica a ela (iereio) é o touro negro (que era sacrificado em Atenas a cada Ano Novo), a ovelha negra e o cachorro negro (em Trácia, Samotrácia, Beócia, Macedônia e Cólofon da Jônia). Eustácio de Tessalônica, sacerdote cristão, nos transmite a informação controlada – por causa da sua condição – de que eram sacrificadas a Ela mainides (μαινίδες. Em grego moderno: tseroulas [τσέρουλα], espécie de peixe comum nos mares gregos e em todo o Mediterrâneo, costumeiramente preparado como petisco. Lembra vagamente a nossa sardinha.) com propósitos apotropáicos. Ele diz: “ΔΙΑ ΤΟ ΔΟΚΕΙΝ ΤΗΝ ΕΚΑΤΗΝ ΜΑΝΙΩΝ ΑΙΤΙΑΝ ΕΙΝΑΙ” (“Por causa da crença de que Hécate é a causa dos frenesis.”).

Os epítetos e títulos pelos quais a deusa Hécate é invocada são: Angelos ou Angelia (mensageira), Apotropaia (aquela que afasta o mal), Dadoukhos (portadora das tochas), Einodia ou Enódia (das ruas/caminhos), Hegêmone, Thirobromos (aquela que é anunciada com rugidos e uivos das bestas), Kleidoukhos ou Kliidoukhos (A que traz as chaves), Kourotrophos (aquela que cuida das crianças), Krokopeplos (que usa peplo amarelo), Lampadiphóros (Portadora de Velas), Nocturia ou Nyktipolos (aquela que perambula durante a noite por vários lugares), Phýlax (Guardiã), Pylaia (que esta nas portas = pyles) e Prothyrea (como no hino de Proclus devotado à Hécate e Jano), Skylakitis (acompanhada por cães), e Skylakagetis (que lidera os cães), Soteira (Salvadora), Tauropolos (que domestica os touros), Triaukhenos e Trikefalos (que tem três pescoços e três cabeças), Trioditis (que protege as três vias/encruzilhadas), Iixikhthon (que rasga a terra), Philérimos (que gosta da solidão) e Ouresiphoitis (Solitária. Como caminham solitários os espiritualmente rústicos em meio à multidão), Phosphoria (A que traz a luz; A que tem nas mãos a aurora boreal), Khthonia (Subterrânea), e muitos outros. 

O Hino Órfico dedicado a Ela nos diz:

“ΕΙΝΟΔΙΑΝ ΕΚΑΤΗΝ ΚΛΗΪΖΩ, ΤΡΙΟΔΙΤΙΝ, ΕΡΑΝΝΗΝ, ΟΥΡΑΝΙΑΝ, ΧΘΟΝΙΑΝ ΤΕ ΚΑΙ ΕΙΝΑΛΙΑΝ, ΚΡΟΚΟΠΕΠΛΟΝ, ΤΥΜΒΙΔΙΑΝ, ΨΥΧΑΙΣ ΝΕΚΥΩΝ ΜΕΤΑ ΒΑΚΧΕΥΟΥΣΑΝ, ΠΕΡΣΕΙΑΝ, ΦΙΛΕΡΗΜΟΝ, ΑΓΑΛΛΟΜΕΝΗ ΕΛΑΦΟΙΣΙ, ΝΥΚΤΕΡΙΑΝ, ΣΚΥΛΑΚΙΤΙΝ, ΑΜΑΙΜΑΚΕΤΟΝ ΒΑΣΙΛΕΙΑΝ, ΘΗΡΟΒΡΟΜΟΝ, ΑΖΩΣΤΟΝ, ΑΠΡΟΣΜΑΧΟΝ ΕΙΔΟΣ ΕΧΟΥΣΑΝ, ΤΑΥΡΟΠΟΛΟΝ, ΠΑΝΤΟΣ ΚΟΣΜΟΥ ΚΛΗΪΔΟΥΧΟΝ ΑΝΑΣΣΑΝ, ΗΓΕΜΟΝΗΝ, ΝΥΜΦΗΝ, ΚΟΥΡΟΤΡΟΦΟΝ, ΟΥΡΕΣΙΦΟΙΤΙΝ, ΛΙΣΣΟΜΕΝΟΣ ΚΟΥΡΗΝ ΤΕΛΕΤΑΙΣ ΟΣΙΑΙΣΙ ΠΑΡΕΙΝΑΙ ΒΟΥΚΟΛΩι ΕΥΜΕΝΕΟΥΣΑΝ ΑΕΙ ΚΕΧΑΡΗΟΤΙ ΘΥΜΩι”.

(“Enódia Hécate celebro, Trívia [Trioditis], amável, celeste, terrestre e marinha, do cróceo véu [Krokopeplos], tumular, celebrando baqueus entre almas de mortos, filha de Perses [Perséia], amiga do ermo [Philérimos], que se ufana com cervos, noturnal [Nocturia], protetora dos cães [Skylakitis], rainha inflexível, do frêmito feral [Thirobromos], sem armas, de forma incombatível, pastora de touros [Tauropolos], soberana detentora das chaves de todo o cosmo [Kleidoukhos]], Hegêmone, ninfa, nutriz de jovens [Kourotrophos], andarilha das montanhas [Ouresiphoitis]. Suplico, donzela, que compareças aos consagrados ritos, benfazeja ao boiadeiro e sempre com um grato coração.” – Tradução de Rafael Brunhara, disponível em: http://primeiros-escritos.blogspot.com.br/2012/10/hino-orfico-1-hecate.html.)

A HÉCATE DOS ROMANOS


A equivalente romana de Hécate é a Deusa Trívia, (ou seja, das três vias, Trioditis).  Como Seu culto foi absorvido pelos romanos já na Antiguidade Tardia, Ela também foi objeto de superstições (quer dizer, de uma equivocada percepção obscura dos Deuses), que advém da percepção popular/folclórica ou de feiticeiros e “teúrgos” vulgares. Além disso, a imagem repulsiva Dela, como um monstro que provoca terror, não é mais que uma criação da literatura romana tardia. Em contraste, a Deusa foi venerada pela aristocracia de Roma com grande piedade até o século IV E.C., havendo sacerdotes que adotaram Seu nome heleno, assim como o nome do deus Dioniso (CIL[1] XI 671, CIL VI 500, 504, 507, 510, 1675 e 31940). 

Vlassis G. Rassias, Março de 2015.

Traduzido para o português por: Emilia Arsinoe.
Revisado por: Mikka Capella e Jota Oliveira.
Originalmente publicado em: http://rassias.gr/1087HECATE.html



[1] Corpus Inscriptionum Latinarum.




quarta-feira, 12 de outubro de 2016

DOGMA X FUNDAMENTO


Ultimamente venho observando como algumas palavras que caem no vernáculo popular acabam se distanciando de seu sentido original para assumir outro, no mais das vezes muito diferentes. Um exemplo no qual bato bastante diz respeito à palavra “opinião”, que não é e nunca foi essa conclusão rasa, no mais das vezes sem base alguma, que a maior parte das pessoas assume como certa. Outro exemplo é a palavra “preconceito”, que de uma ideia pré-concebida, um conhecimento especulativo que todos nós possuímos sobre um ou outro assunto (afinal ninguém sabe tudo sobre tudo), muitas vezes assume o sentido de discriminação e até ofensa.

Outra palavra parece estar sofrendo ressignificação parecida, especialmente em determinados nichos virtuais identificados com religiosidades pagãs, cristo-pagãs e, sobretudo, com a prática da bruxaria: “dogma”. Quem acompanha, mesmo que a certa distância, como eu, esses nichos, já deve ter percebido que ele é regido por ondas, modas que vão e vêm. De uns tempos para cá, parece que uma dessas ondas se traduz na expressão “a bruxaria não possui dogmas”, que sintetiza crenças em torno de uma prática mágica/religiosa absolutamente livre de regras de qualquer tipo... Este, aliás, parece ser, para além do assunto em pauta, o grande lema do zeitgeist destes tempos – a ausência de regras. Seria ótimo se a vida realmente pudesse ser assim, não seria?


Divagações a parte, a finalidade deste artigo é discutir o uso específico da palavra dogma dentro do contexto apresentado, que revela um desconhecimento não apenas semântico, mas também teológico. Teologia esta que, como já observado em outras ocasiões, parece ser uma das principais carências das espiritualidades pagãs, neopagãs e cristo-pagãs que se apresentam na internet (vide Olhar Pagao - Uma Outra Leitura do Mundo).


Comecemos pelo sentido semântico de dogma. A palavra tem origem grega (δόγμα) e significa, literalmente, “o que se pensa é verdade”. Grosso modo, poderíamos considerar “dogma” um equivalente semântico para outra palavra de origem grega, “axioma” (ἀξίωμα), que significa “considerar válido”. O axioma é uma designação filosófica para algo que pode ser considerado verdadeiro sem a necessidade de ser provado. Dogmas são axiomas ideológicos, pontos fundamentais de uma doutrina, religiosa ou não, impassíveis de contestação ou discordância. Para a Igreja Católica, o dogma é uma revelação divina. Um exemplo de dogma católico é a crença da Santíssima Trindade, por exemplo, “um só Deus em três pessoas”, que, a própria religião admite, é um mistério que não pode ser racionalmente explicado.


Então eu seria a primeira pessoa a concordar com a expressão – “a bruxaria não tem dogmas”. Aliás, vou mais longe – os paganismos não têm dogmas. As religiões pagãs são extremamente práticas e voltadas para as realidades cotidianas, quase nunca têm espaço para divagações cósmico-transcendentais, distantes demais para serem compreendidas. Será que isso, no entanto, é a mesma coisa que dizer – “a bruxaria não tem regras” ou “os paganismos não têm regras”? Será que vale tudo, absolutamente qualquer coisa que a mente humana for capaz de conceber? Afinal, estamos falando de formas espirituais de conceber o mundo e a realidade ou das divagações e anseios da nossa própria mente?


Nem toda regra é um dogma. Quando nós somos jovens demais para compreender os perigos do mundo, geralmente ouvimos de algum adulto – “ei, não ponha as mãos no fogo!” Certamente há um motivo lógico e perfeitamente compreensível para isso. Se puser as mãos no fogo, a gente se queima. Da mesma forma, ninguém que não esteja a fim de morrer pula de um prédio de dez andares... Você pode ser a melhor pessoa do mundo e se achar muito querido pelos seus Deuses; você pode até se considerar o bruxo super-foda-pica-das-galáxias, mas, se fizer isso, vai se esborrachar no chão, porque existe uma coisa chamada gravidade que age sobre tudo, inclusive eu e você.


Será que o calor do fogo é um dogma? Será que a gravidade é um dogma? O que nos impede de voar, como os pássaros?


Não, nem toda regra é um dogma. Bruxaria pode não ter dogma, mas com certeza tem regras. E uma palavra muito boa para essas regras é “fundamentos”. A bruxaria, como qualquer arte e ciência, tem técnicas e fundamentos. As coisas não são feitas do jeito que são porque alguém, um dia, acordou e decidiu que seriam assim. Da mesma forma, quando se diz que algo é perigoso ou que não deve ser feito de determinada maneira, isso também não é sem motivo ou “por revelação divina”. Como diriam os mais velhos: tudo tem um quê e um por quê. E é uma atitude no mínimo saudável procurar estar ciente dos quês e dos por quês do caminho que você decidiu trilhar.


“Ah, mas existem diferentes tradições e formas de trabalho”, dirão alguns. Não é sobre isso que estamos falando. É claro que existem muitas e diversas tradições. A questão é: qual é a sua tradição e forma de trabalho? Quais são os fundamentos dessa tradição? Essa é uma pergunta para a qual muitos não têm resposta.


“Sou independente”, dizem uns. “Não gosto de rótulos”, dizem outros. Ninguém é independente, na verdade. Ninguém cultua Deuses tirados da própria cabeça (bom, alguns sim, mas sem comentários...), ninguém opera magia em um universo criado por si mesmo. Então vamos parar de nos iludir?


A bruxaria pode ser sem dogma, o que ela não pode ser é sem fundamento. Bruxaria sem fundamento também não tem referência, não tem compreensão, não tem entendimento e, por fim, não tem força. É apenas um bonito – ou não – enfeite para as redes sociais.


Em outra oportunidade, discutiremos sobre a palavra “heresia”, outro modismo dos círculos virtuais pagãos, neopagãos e bruxos, e como ele, no contexto de um mundo secularizado, simplesmente não faz sentido.